Textos Para Cenas Do Encontrão

Abajur Lilás
                                                              Plínio Marcos
                                                                                                                             Adaptação: Zé Aires
(3 mulheres)
Dilma e Célia são duas prostitutas. Moram e trabalham no puteiro do Giro, cafetão viado. Dilma é mãe de um menino e acredita que pode dar um futuro melhor para o filho. Célia não tem nada a perder, ninguém importante em sua vida e acredita que pode fazer o que bem entender. Ambas podem estar tuberculosas. Célia quebrou um abajur, bebeu todas e tomou uma surra do namorado da bicha (Giro).
Leninha é uma putinha nova, recém chegada. Não quer se misturar com as duas e sabe o que quer.
CÉLIA                Filho da puta nojento!
DILMA               Tá vendo o que você me arrumou?
CÉLIA                Se vai ficar chiando, é melhor ir lá e me entregar.
DILMA                Não sou cagüeta.
CÉLIA                Então cala o bico.
DILMA               Você não tinha nada que quebrar a porra do abajur.
CÉLIA                Conta pra ela, conta! Depois ela vai contar pra a bichona.
LENINHA           Não sou cagüeta.
CÉLIA                Não te conheço.
LENINHA           Nem eu você!
CÉLIA                De uma coisa você pode ter certeza, não sou assim com a bicha.
LENINHA           E você acha que eu sou?
CÉLIA                Não sei.
LENINHA           Então se fecha. Eu só quero sossego. Faço uns michês, ganho a grana e só.
DILMA                Você sabe tudo.
LENINHA           Alguma coisinha eu sei. O bastante pra tirar de letra os babacas.
CÉLIA                Que você ta fazendo na zona?
LENINHA           Me defendendo.
CÉLIA                Se você é sabida, você devia estar na maré mansa.
LENINHA           E não tô? Entrei nessa porque quis. É mo­le. Uns dois michês é mais que um mês de trampo legal. Agüentar essa bicha é sopa. Duro é ser babá de filho dos outros pra ganhar uma merda. E o que é pior é que a gente trabalha, trabalha e todo mundo acha que a gente é puta. Então, é melhor ser puta mesmo.
DILMA               Você nunca quis casar, ter filho?
LENINHA          Tenho nojo de homem. São uns bostas. Eu quero é nada. Não ter que dar satisfação a ninguém. Tá? É is­so que quero.
DILMA             A gente tem que ter um troço pra se agarrar. Se eu não tives­se meu filho, já tinha feito um monte de besteiras. Só agüento a viração pelo meu filho. Um dia, eu e ele mudamos a sor­te. Daí, eu vou poder ser gente. Ter gente por mim.
LENINHA       Bela merda! Você não faz porque não é de fazer. Quem tem cu tem medo. E você dá a desculpa do filho. Mas vai bo­tar ele na merda.
CÉLIA          Gostei. É isso mesmo, Leninha. Essa trouxa é as­sim mesmo. Eu tô a fim de encarar a bicha. Essa aí tem a grana e não entra na mi­nha. Eu comprava a arma, apagava a desgraçada e essa porra desse mocó ficava nosso. Ela não topa. Você topa?
LENINHA        Neca! Meu negócio é outro. Não quero na­da com nada. Não quero ser dona de mocó nenhum.
DILMA              Você vai se estourar.
LENINHA         Que nada!
DILMA              A gente tem que ser junta.
CÉLIA              Mas pra apagar a bicha.
DILMA              Não. Pra juntar grana e comprar um mocó. Sem cafetina, sem dono, sem mumunha. A gente trabalhando pra gente.
CÉLIA              Nessa a gente vai levar a vida toda, vamos encarar o puto.
LENINHA       No papo se ganha a bicha. Não viu como eu fiz. ela comprar abajur novo, trocar lençol e tudo? E só de leve.
CÉLIA              Não é nada disso. É isso! (Célia agarra um objeto qualquer e ati­ra no chão.)
DILMA             Por que você quebrou essa merda? Eu que vou ter que pagar. Já não chegava o abajur?
CÉLIA             Me cagüeta.
DILMA             Filha da puta!
CÉLIA              Me entrega.
DILMA             Nojenta!
LENINHA        Que você ganha com isso?
DILMA             Nada. Mas eu perco!
CÉLIA             Chegou à hora da decisão ou tão com a bicha ou tão comigo!
LENINHA        Eu não tô nem com a bicha, nem contigo. To na minha.
CÉLIA             Não pode. Você vai ver. Por bem ou por mal, você tem que escolher.
DILMA             Eu só to com meu filho. O resto não conta. Eu quero que tudo se dane.
CÉLIA             Não pode. Se você tá com seu filho, você tá com a bicha. Quando ele crescer, vai cagar pra você. É isso que você vai arranjar. Teu filho vai ser podre que nem você.
DILMA             Porca! Nojenta! Nojenta!
LENINHA        Vou de pinote. A bicha vai ficar uma vara. Quero estar na rua, quando ele chegar. (Leninha sai.)
DILMA         Por que você fez isso, sua filha da puta? Por quê? Você vai desgraçar minha criança. É isso que você vai fazer. Mas eu te mato. Porca! Nojenta! Eu tô criando meu filho com todo sacrifício, não é pra você me aprontar. Sua nojenta!
CÉLIA             Você é podre! Teu filho vai sair podre que nem você. Bicha que nem o Giro.
DILMA             Você é louca! Louca! Louca!

FIM

A Falecida
Nelson Rodrigues
 Adaptação: Giseli Ramos
(1 homem e 1 mulher)
Quando Zulmira consulta uma cartomante, essa povoa sua mente com desconfianças, sobretudo por uma loira, que anseia descobrir quem é.
TUNINHO          Vem espremer o cravo grande das costas.
ZULMIRA           Vira.
Zulmira começa a espremer.
ZULMIRA           Sabe onde eu fui hoje?
TUNINHO          Ai! Onde?
ZULMIRA           Á cartomante, a tal que me recomendaram.
TUNINHO          Você é teimosa! Disse para não ir! Ai!
ZULMIRA           Fui e não me arrependi. Ela me abriu os olhos!
TUNINHO          Te tapeou.
ZULMIRA           Quer saber o que ela foi dizendo logo de cara? Que eu tomasse cuidado, com uma mulher loura! Que tal?
TUNINHO          E daí?
ZULMIRA           Você acha pouco?
Quem será essa loura, minha Nossa Senhora?
TUNINHO          Perguntou, ao menos, à imbecil dessa cartomante se eu ia melhorar de situação e outros bichos?
ZULMIRA           Me esqueci!
TUNINHO          Eu sabia. Mulher é isso mesmo! Você inventa o diabo dessa cartomante pra saber da tua asma e do meu emprego! E quando acaba, vai lá e não dá a menor bola! Muito bonito!
ZULMIRA           Perdão, meu anjo! (pausa)
Benzinho.
TUNINHO          Hum...
ZULMIRA           Dá uma opinião, um palpite: quem será essa mulher loura?
TUNINHO          E eu que sei?
ZULMIRA           Vê se te lembra?
TUNINHO          Loura?
ZULMIRA           Quem pode ser?
TUNINHO          Tua prima.
ZULMIRA           Qual delas?
TUNINHO          Ora, Zulmira! Qual é tua prima que mora nesta rua? Aqui do lado?
ZULMIRA           Glorinha!!! É mesmo! Oxigenada, mas loura!
TUNINHO          Batata!
ZULMIRA           Só pode ser ela, é ela no duro!
TUNINHO          Apaga a luz e vem dormir.
ZULMIRA           Foi um altíssimo negócio essa cartomante! Agora eu sei de tudo. Essas dores nas costas... Olha: hoje eu passei o dia inteirinho com o nariz entupido...
TUNINHO          Gripe!
ZULMIRA           Gripe aonde? Macumba!
TUNINHO          Mas a mulher é protestante!
ZULMIRA           "Protestante" diz você! Fingimento, máscara! Vou te dizer mais o seguinte: Glorinha tem parte com o demônio!
Tuninho já adormeceu e ronca. Zulmira não toma conhecimento do sono profundo do marido.
ZULMIRA           Você acredita que ela seja tão séria quanto diz? Pois sim! Não é mais séria do que ninguém. Tão cínica que diz que a mulher que beija de boca aberta é uma sem-vergonha...
Que você diz disso, heim?
Deixa de ser trouxa, não vê logo que é falsidade?
Também, não vai à praia, não põe maiô...
Tuninho! Tuninho!
TUNINHO          Que é?
ZULMIRA           Por essa luz que me alumia, essa gata está cavando a minha sepultura!
TUNINHO          Não faz carnaval!
ZULMIRA           Olha só a ronqueira do meu pulmão. Espia!

FIM

À margem da vida
TENNESSE WILLIAMS
Adaptação: Renata Kamla
(2 mulheres)
Amanda está preparando Laura para um jantar, vão receber um amigo de Tom, seu irmão, para jantar, um possível pretendente.
LAURA               Mamãe, você me faz ficar tão nervosa!
AMANDA            Nervosa? Por quê?
LAURA               Com toda essa confusão, você faz tudo parecer... tão importante!
AMANDA            Eu não compreendo você, Laura. Agora olhe-se no espelho! Não, espera! Espere um minuto... Tenho uma idéia!
Amanda pega duas esponjas de pó de arroz, enrola em lenços e coloca no seio de Laura.
LAURA               Que você está fazendo,mamãe?
AMANDA            São o que se chama de “disfarces sedutores”!
LAURA               Não vou usar isso!
AMANDA            Vai ,sim , senhora!
LAURA               Da maneira como você age, parece que estamos preparando uma armadilha.
AMANDA            Todas as moças bonitas são armadilhas, uma armadilha encantadora, e é isso que os homens esperam.Agora olhe-se no espelho. Você nunca ficará mais linda! Dei um trocado extra a seu irmão para ele e Mr. O’Connor poderem tomar o táxi para vir...
LAURA               Como você disse que é o sobrenome dele?
AMANDA            O’Connor
LAURA               E o nome?
AMANDA            Não me lembro. Ah, me lembro sim. É... Jim!
LAURA               Você tem certeza que o nome dele é Jim O’Connor?
AMANDA            Tenho. Por quê?
LAURA               No ginásio havia um Jim O’Connor que nós dois conhecíamos... Se for o mesmo que Tom está trazendo para jantar... peço desculpas, mas não aparecerei na sala.
AMANDA            Que bobagem é essa?
LAURA               Você me perguntou se alguma vez eu já tinha gostado de um rapaz. Você não se lembra que eu lhe mostrei a fotografia dele?
AMANDA            Ah, aquele do álbum de formatura do colégio?
LAURA               Ele mesmo
AMANDA            Mas, Laura, você estava apaixonada por aquele rapaz?
LAURA               Não sei, mamãe. Só sei que não posso sentar-me à mesa se for ele!
AMANDA            Não será ele! Mas seja ou não, você vai sentar-se conosco. Não tem desculpa!
LAURA               Mas você tem que me dispensar, mamãe.
AMANDA            Não estou com paciência para aturar seus caprichos, Laura! Já agüentei muita coisa de você e de seu irmão, dos dois! Tom esqueceu a chave, portanto será você quem abrirá a porta quando eles chegarem.
LAURA               Não, mamãe! Eu não posso!
Toca a campanhia
AMANDA            Laura, meu bem! A porta!
LAURA               Mamãe... vá você abrir a porta! Por favor, eu lhe peço!
AMANDA            Eu lhe disse que não faria suas vontades, Laura
LAURA               Mas...
AMANDA            Laura Wingfileld, abra aquela porta imediatamente!

FIM

Bailei na curva

(Cena da Briga)
 Julio Conte e outros
Adaptação: Marcia Azevedo
(2 homens e 2 mulheres)
PAULO              Manhê, manhê!  Eu vou ali na Ruth e já venho, tá?
MÃE                   Não vai comer a sobremesa, meu filho?
PAULO              Já comi.
MÃE                   E o que você vai fazer na Ruth?
PAULO              Vou convidar ela prá nós ir ao cinema.
CARMEN           (entrando) Irmos ao cinema, irmos!
PAULO              Não falo com baixinha!
CARMEN           Quando você crescer, poderá falar comigo, se até lá tiver aprendido a falar.
MÃE                   Para ir ai cinema, tem que pedir permissão para o teu pai.
Entra o Pai. Lendo um livro, tão envolvido que quase esbarra na Mãe. Se beijam e senta-se à mesa.
PAULO              Paiê, eu posso ir ao cinema com os meninos? Já tá tudo combinado e o Caco disse que...
MÃE                   Como é que está tudo combinado se você falou que tem que ir lá falar com a Ruth?
PAULO              Só falta falar com a Ruth, mãe. O Caco pediu...
PAI                     O Caco é o vizinho aqui da frente?
MÃE                   É por que?
PAI                     O pai dele é o braço direito do Meneghetti.
PAULO              Deixa pai, deixa!
PAI                     Pergunta prá tua mãe. Ela é quem decide.
MÃE                   Tudo comigo. É sempre assim.
CARMEN           Pirralho não pode ir ao cinema.
PAULO              Sou pirralho, mas sou mais alto que você!
CARMEN           Mas  não cresce aqui dentro.
PAULO              Ui, Carmen, você tem raiva de mim porque  é mais velha e eu sou mais alto que você, tá?!
CARMEN           Não é nada disso, seu espírito de porco!
PAI                     Vão parar vocês dois?
CARMEN           Pai, você nem sabes o que ele fez. Cuspiu na Vera, subiu numa árvore e ficou mostrando o pinto para todo o mundo!
PAI                     É verdade isso, meu filho?
CARMEN           Claro que é. Pode perguntar para qualquer um lá na escola.
PAULO              E quem é que ficava se beijando com o Toninho na saída do colégio... que eu vi tudinho?
PAI                     Vocês dois vão parar que eu não quero saber de discussão na família. Está bem, Paulo?
PAULO              Paiê, o senhor sempre diz que a gente tem liberdade para fazer as coisas. Então, ela vive se metendo na minha.
PAI                     Paulinho, eu sempre digo que a tua liberdade termina onde começa a do outro.
CARMEN           O problema é que ele nunca sabe onde começa a do outro. Ele está precisando de uma tunda!
PAI                     Mas onde é que nós estamos? Eu nunca bati em vocês, principalmente em você, minha filha. E não pretendo começar hoje! Você entende isso Carmen?
CARMEN           Entendo, pai. Mas acontece que não consigo me controlar, ele me irrita, me irrita!
MÃE                   Carmen, sai de perto do teu irmão! E você toma juízo, Paulo!
PAULO              Carmen, vamos ficar amigos?
Paulo se aproxima como se fosse fazer as pazes, mas na hora tira uma barata e  mostra para Carmen.
CARMEN           (gritando) Ai!
Sai de cena, Mãe vai atrás para ajudar. Pai pega Paulo pela orelha quando ele tenta escapar.
PAI                     Pede desculpa para a tua irmã.
PAULO              Ai, ai, ai, paizinho.
Carmen volta trazida pela Mãe.
PAI                     Pede desculpa para a tua irmã.
CARMEN           Da próxima vez eu fujo de casa!
MÃE                   Calma.
CARMEN           Eu fujo, eu fujo!
PAULO              Desculpa.
PAI                     Mais alto.
PAULO              Desculpa.
PAI                     Não grita!

FIM

Bailei na curva

(Cena da Gravidez)
Julio Conte e outros
(2 mulheres)
Luciana e Ruth são irmãs. Luciana é uma mulher mais independente. Ruth desconfia que está grávida de Rodrigo, um homem que não é fiel; e, preocupada, vai até sua irmã pedir uma opinião sobre sua decisão. 
LUCIANA           É um... dois... três... e sobe até oito. É um dois e a mesma coisa... (campainha) Puta merda. (abre a porta) Oi, Ruth.
RUTH                Tudo bom?
LUCIANA           Tudo.
RUTH                O que tu ta fazendo?
LUCIANA           Preparando uma aula. Ta afim de um café?
RUTH                Não vai perguntar pela mãe?
LUCIANA           Se tiveres alguma coisa especial pode falar. Que cara é essa?
RUTH                Minha menstruação atrasou.
LUCIANA           Já fez algum teste de gravidez?
RUTH                Não fiz teste nenhum. Eu sei que to grávida.
LUCIANA           Quanto tempo está atrasada?
RUTH                Quinze dias.
LUCIANA           Quinze dias não é atraso. Quinze dias são temperamento.
RUTH                Eu sei que to grávida. Eu me conheço.
LUCIANA           Já contou pro Rodrigo?
RUTH                Ele só pensa naquela moto.
LUCIANA           Mas ele tem que sair do mundinho dele para saber que é o pai.
RUTH                Não dá, ele é muito irresponsável.
LUCIANA           Foi até bom tu falar nisso. Não sei como é que tu agüenta um cara como o Rodrigo. Ele transa com um monte de mulher... até em cima de mim ele já deu.
RUTH                Tu não me disse nada.
LUCIANA           Ué, to te falando agora.
RUTH                Eu to afim de ter esse filho.
LUCIANA           O quê?
RUTH                Eu to afim de ter esse filho. Eu não tenho nada, Luciana. Tudo o que tenho é dos velhos. Tu ainda tem teu apartamento, tuas aulas de dança, faz teu teatro dançado, tem teus amigos. A única coisa que eu tenho é meu corpo.
LUCIANA           Ruth, tu mesma está dizendo que não tem nada. Sabe a barra que é ter um filho?
RUTH                Sabe qual é a barra de não ter ninguém? Eu to cansada de ser sozinha.
LUCIANA           Tu não vai deixar de ser sozinha tendo esse filho. Compra um cachorro, então!
RUTH                Tu não ta entendendo. Não é a mesma coisa.
LUCIANA           Quem não ta entendendo é tu. Um filho não é um bibelô.
RUTH                A vida inteira ouvi as pessoas dizendo que eu não to entendendo. Mas agora eu sei o que eu quero. Eu não to louca. Tu fala isso porque já fez um aborto.
LUCIANA           (chocada) Claro que fiz e faria de novo. Tu pode não acreditar, mas eu queria ser mãe e ainda quero ter um filho, mas não é quando a gente quer. É quando a gente pode.
RUTH                A gente pode quando a gente quer.
LUCIANA           Não é assim. Essa criança vai ser filho de um filho.
RUTH                Mas ele vai ser tão bonito.
LUCIANA           Vai ser como nós... (campainha)
RUTH                Esquece o que eu te disse.

FIM

Boca de Ouro

NElson Rodrigues
Adaptação: Eduardo de Paula
(2 homens e 1 mulher)
Celeste é uma moça suburbana, casada com Leleco, que acabou de ser despedido de seu emprego. A mãe de Celeste acaba de morrer e eles, numa situação difícil, não tem o dinheiro para fazer o enterro. Então, Leleco resolve pedir um empréstimo para o bicheiro Boca de Ouro, que é dado a socorrer os pobres que o procuram. No entanto, Boca de Ouro empresta o dinheiro com uma condição: que a sua própria mulher vá buscá-lo. Após Leleco telefonar para sua esposa,Celeste chega para pegar o dinheiro a pedido do marido.
CELESTE         (entrando) Dá licença?
BOCA                Ah, como está?
CELESTE         Bem, e o senhor? Bom, é modo de dizer...
BOCA                Natural! Natural! Infelizmente, todos nós temos que ir um dia... Encontrou seu marido?
CELESTE         No corredor.
BOCA                Bom menino! Aceita alguma coisa? Toma um...
CELESTE         Nada.
BOCA                Guaraná?
CELESTE         Água gelada.
BOCA                Ou grapete?
CELESTE         Qualquer coisa!
BOCA                Fazendo cerimônia comigo?
CELESTE         Não estou fazendo cerimônia! Deixei o táxi esperando!
BOCA                Sente-se! Vai ganhar uma televisão!
CELESTE         Eu?
BOCA                Você, sim.
CELESTE         Só ouço rádio!
BOCA                Olha aqui. (apanha o pacote de dinheiro) O que é isso?
CELESTE         Não sei. Dinheiro?
BOCA                Toma.
CELESTE         Meu?
BOCA                Teu. Uma parte, para o enterro. A outra você gasta. Compra a televisão. Segura. Sabe que eu acho você bonitinha?
CELESTE         Preciso ir.
BOCA                Tem medo de mim?
CELESTE         Não.
BOCA                Ou tem?
CELESTE         Tenho.
BOCA                Por que, seu eu não te faço mal?... Só quero que você seja boazinha comigo... Promete? (Boca de Ouro prende Celeste nos seus braços.).
CELESTE         Eu grito!
BOCA                Vem!
CELESTE         Meu marido dá-lhe um tiro!
BOCA                Teu marido?
CELESTE         Quer ver como eu chamo meu marido?
BOCA                Teu marido me dá um tiro? Um tiro em mim, sua! Vamos lá! Você pensa que teu marido é homem? (para o corredor) Leleco! Leleco!
LELECO            Pronto!
CELESTE         Ah, Leleco!
LELECO            Que foi?
CELESTE         Vamos embora!
LELECO            Pegou o dinheiro? Não pegou o dinheiro?
BOCA                Conta pra teu marido, conta! E se você não conta eu conto!
CELESTE         Vem! Não fico mais aqui!
BOCA                Rapaz vem cá! Larga tua mulher! Eu quis beijar tua mulher no peito!
LELECO            Celeste é verdade?
CELESTE         Quis abusar de mim!
BOCA                Pois é! Então, sua mulher disse sabe o que? Que você ia me dar um tiro!
LELECO            Mas o senhor não tinha esse direito...
BOCA                Quero o tiro! Você vai me dar o tiro...
CELESTE         Vamos sair daqui!
BOCA                Ninguém sai daqui! E não pensem que estou bêbado! Segura! (segura o cano e oferece a coronha. Leleco olha a arma fascinado).
CELESTE         Não Leleco, não!
BOCA                Toma, anda! Ou esquece que eu dei um chupão na sua mulher? (Leleco obedece, finalmente. Apanha o revólver). Você é homem rapaz?
LELECO            Sou!
BOCA                Então atira, pronto, atira!(para Celeste) Manda teu marido atirar!
CELESTE         Não mando!
BOCA                Ou atira ou morre!
LELECO            Mas o senhor prometeu o dinheiro!
BOCA                Agora vai morrer!
LELECO            Mas eu não fiz nada!
BOCA                (arranca o revólver da mão de Leleco e dá-lhe um safanão, Celeste cai longe e fica no chão, assistindo, atônita) – Sai pra lá! (agarra Leleco) Quer viver?
LELECO            Quero sim, quero!
BOCA                Então manda tua mulher entrar ali!
LELECO            Ali onde?
BOCA                No quarto, ali no quarto!
CELESTE         Eu não vou... Não quero...
BOCA                Eu podia arrastar tua mulher pelos cabelos! Mas quero que você mande. Diz pra tua mulher! Vai! Manda!
LELECO            Vai... Celeste, vai! Ou prefere que ele me mate? Quer que ele me mate Celeste? Celeste, eu estou pedindo: vai Celeste, vai!
CELESTE         Eu vou.

FIM

Bodas de Sangue
Federico Garcia Lorca
Adaptação: Marcia Azevedo
(1 homem e 2 mulheres)
Leonardo é o ex-namorado da Noiva. Eles continuam apaixonados um pelo outro, apesar de Leonardo ter se casado com uma prima da Noiva. Hoje é o dia do casamento da Noiva com outro homem. Leonardo tem sido visto rondando a casa...
CRIADA             (abre a porta, surpresa.) Você?
LEONARDO     Eu mesmo. Bom dia.
CRIADA             O primeiro ! E sua mulher?
LEONARDO     Vim a cavalo. Ela deve estar chegando pelo caminho.
CRIADA             Sente-se. Ninguém se levantou ainda.
LEONARDO     E a noiva?
CRIADA             Vou vesti-la daqui a pouco.
LEONARDO     A noiva! Deve estar contente!
CRIADA             (mudando de assunto)E o menino?
LEONARDO     Qual?
CRIADA             Seu filho.
LEONARDO     (recordando, meio sonolento) Ah!
CRIADA             Vem com a mãe?
LEONARDO     Não. (levantando-se) E o noivo, já trouxe as flores de laranjeira que ela deva pôr no peito?
NOIVA               (aparecendo, ainda de anáguas e com a grinalda na cabeça) Trouxe.
CRIADA             (forte) Não saia desse jeito
NOIVA               Que é que tem? (Séria) Por que pergunta se trouxeram as flores de laranjeira? É com alguma intenção?
LEONARDO     Nenhuma. Que intenção podia ter? (Aproximando-se) Você me conhece bem, e sabe que não tenho intenção alguma.
NOIVA               O que veio fazer aqui?
LEONARDO     Ver seu casamento.
NOIVA               Eu também vi o seu!
LEONARDO     Amarrado por você, feito pelas suas mãos.
NOIVA               Mentira!
LEONARDO     Não quero falar, porque sou homem de sangue quente, e não quero que todos estes montes escutem a minha voz.
NOIVA               A minha seria ainda mais forte.
CRIADA             Parem com isso. Você não tem nada que ficar lembrando o passado.
(A Criada olha para a porta, inquieta.)
NOIVA               Tem razão. Eu não devia nem lhe falar. Vá embora, e espere sua mulher lá na porta.
LEONARDO     Será que você e eu não podemos falar?
CRIADA             (com raiva) Não, não podem falar.
LEONARDO     Depois do meu casamento, tenho pensado noite e dia de quem era a culpa, e cada vez que penso vem uma culpa nova, que engole a outra; mas sempre há culpa!
NOIVA               Mas eu tenho o orgulho. Por isso me caso. E vou viver encerrada com meu marido, a quem tenho que amar acima de todas as coisas.
LEONARDO     O orgulho não vai lhe adiantar nada. (Aproxima-se.)
NOIVA               Não se aproxime!
LEONARDO     Calar e queimar por dentro é o maior castigo que a gente pode se impor.
NOIVA               Não posso ouvir você. Não posso ouvir sua voz.
CRIADA             (agarrando Leonardo pela lapela) Você tem que ir embora já!
LEONARDO     É a última vez que vou falar com ela. Não tenha medo.
 NOIVA              E sei que estou louca, sei que o meu peito não agüenta mais, e fico aqui, parada, ouvindo o que ele diz, vendo o seu jeito de andar, os seus braços.
LEONARDO     Não ficava tranqüilo enquanto não lhe dissesse essas coisas. Eu me casei. Case-se, agora!
CRIADA             (a Leonardo) E casa, mesmo!
NOIVA               (Sai correndo para o quarto.)
CRIADA             (A Leonardo) Nunca mais chegue perto dela.
LEONARDO     Não se preocupe. (Sai pela esquerda.)

FIM

Eles não usam black-tie

GIANFRANCESCO GUARNIERI
Adaptação: Marcia Azevedo
(2 homens)
Otávio e Tião são pai e filho, são operários em uma fábrica de São Paulo na década de 50. Os operários entram em greve sob o comando de Otávio, líder grevista. Tião fura a greve organizada por seu pai, acreditando que está garantindo seu futuro com Maria que espera um filho seu. Eles vivem no morro e todos julgam ser traição a atitude de Tião, por isso ele terá de deixar o morro. Durante o piquete Otávio foi preso, quando o soltam ele volta para casa e encontra Tião que foi despedir-se da família com a ideia de voltar para buscar Maria para viverem fora de lá.
TIÃO                  Papai...
OTÁVIO             Me desculpe, mas seu pai ainda não chegou. Ele deixou um recado comigo, mandou dizer pra você que ficou muito admirado, que se enganou. E pediu pra você tomar outro rumo, porque essa não é casa de fura-greve!
TIÃO                  Eu vinha me despedir e dizer só uma coisa: Não foi covardia!
OTÁVIO             Seu pai me falou sobre isso. Ele também procura acredita que num foi por covardia. Ele acha que você até que teve peito. Furou a greve e disse pra todo mundo, não fez segredo. Não fez como Jesuíno que furou a greve sabendo que tava errado. Ele acha, o seu pai, que você é ainda mais filho da mãe! Que você é um traidô dos seus companheiro e da sua classe, mas um traidô que pensa que ta certo! Não um traidô por covardia, um traidô por convicção!
TIÃO                  Eu queria que o senhor desse um recado a meu pai...
OTÁVIO             Vá dizendo.
TIÃO                  Que o filho dele não é um “filho da mãe”. Que o filho dele gosta de sua gente, mas que o filho dele tinha um problema e quis resolve esse problema de maneira mais segura. Que o filho é um homem que quer bem!
OTÁVIO             Seu pai vai fica irritado com esse recado, mas eu digo. Seu pai tem outro recado pra você. Seu pai acha que a culpa de pensa desse jeito não é sua só. Seu pai acha que tem culpa...
TIÃO                  Diga a meu pai que ele não tem culpa nenhuma.
OTÁVIO             (perdendo o controle) Se eu tivesse educado mais firme, se te tivesse mostrado melhor o que é a vida, tu não pensaria em não ter confiança na tua gente...
TIÃO                  Meu pai não tem culpa. Ele fez o que devia. O problema é que eu não podia arrisca nada. Preferi tê o desprezo de meu pessoal pra poder querer bem. Como eu quero querer, a ta arriscando a vê minha mulhé sofrê como minha mãe sofre, como todo mundo nesse morro sofre!
OTÁVIO             Seu pai acha que ele tem culpa!
TIÃO                  Tem culpa de nada, pai!
OTÁVIO             (num rompante) E deixa ele acredita nisso, se não, ele vai sofrê muito mais. Vai achar que o filho dele é safado de nascença. (acalma-se) Seu pai manda mais um recado. Diz que você não precisa aparece mais e deseja boa sorte pra você.
TIÃO                  Diga a ele que vai ser assim. Não foi por covardia e não me arrependo de nada. Até um dia.
OTÁVIO             Tua mãe, talvez, vai querê falá contigo... Até um dia!

FIM

Gota d’água
Paulo Pontes e Chico Buarque
Adaptação: Marcia Azevedo
(1 homem e 1 mulher)
Joana e Jasão eram casados. Tiveram dois filhos. Jasão fica famoso com o samba Gota d’ água graças a Creonte (manda-chuva do lugar) que o auxilia. Jasão larga Joana para ficar com Alma, filha de Creonte. Passado uns dias, Jasão retorna à casa de Joana para tentar uma separação amigável.
JASÃO               Joana... (tempo)
JOANA               Que é que veio fazer aqui, Jasão? (tempo)
JASÃO               Como vai?...
JOANA               Fala baixo que os meninos tão dormindo...
JASÃO               E você, como é que vai?...
JOANA               Ah, eu vou bem, vou muito bem, Jasão!...
JASÃO               Você remoçou um bocado... Emagreceu... Ficou mais bonita...
JOANA               O que é que você quer Jasão?
JASÃO               Dizem por aí que você sofreu tanto com nossa separação... Mas eu não sei não...
JOANA               Você veio só debochar, Jasão, ou tem coisa séria pra dizer...
JASÃO               Cê tá muito bem, não é deboche...
JOANA               Sei, que mais?...
JASÃO               Joana me escuta, você assim bonita, ainda moça, enxuta, pode encontrar uma pessoa...
JOANA               Sei... E o que mais?...
JASÃO               Como, o que mais? Responde ao que eu tô falando...
JOANA               Me deixa em paz, Jasão, você tá com trinta anos, samba nas paradas de sucesso, o que é que você inda quer de mim? Vai dar conselho à puta que o pariu.
JASÃO               Não dá, não dá... Eu tô querendo conversar, mas assim... Não dá não...
JOANA               Escuta aqui, menino.
JASÃO               Escuta, mulher, não tô a fim de brigar.
JOANA               Jasão, você é bem folgado. Chega aqui... Joana, minha querida... Aqui ó, Jasão, me esquece...
JASÃO               Joana, vem aqui... Escuta Joana... Vem... Escuta mulher, sabe que eu gosto de ti? Gosto muito, penso sempre em ti e nos meninos... Por isso vim aqui... e então...
JOANA               Cê lembra de mim, Jasão? Ainda lembra?...
JASÃO               O que é que eu falei?...
JOANA               Lembra não. Cê gosta da filha do Creonte, Jasão?
JASÃO               Não quero falar nisso agora
JOANA               Gosta, não. Ta só perturbado, né? Responde pra mim...
JASÃO               Tava falando, deixa eu continuar, sim?
JOANA               Responde duma vez, homem, toma coragem. Você gosta mesmo da moça?
JASÃO               (gritando) Mulher, pára, deixa eu falar... (tempo) Eu te conheci, tava pra completar vinte anos, não foi? Você tinha trinta e quatro. É claro que, daqui pra frente, cada hora do dia só vai servir pra nos separar. E vai controlar ciúme, rancor, vai agüentar a dor de corno, o mau humor? Ou quer que eu também fique velho, só por causa da tua velhice?
JOANA               Jasão, pega a tua mocidade e enfia...
JASÃO               Joana, você tem que se acalmar... briga de casal sempre aconteceu. Não deu, paciência... Cada qual vai pro seu canto começar a sua vida de novo...
JOANA               Que vida eu tenho pra começar?...
JASÃO               Joana, eu não conheço ninguém com mais vida do que você...
JOANA               Teu samba vai tocar em tudo quanto é programa. Em troca, pela gentileza vais engolir a filha do Creonte, aquela mosca morta. Esse é o teu preço. Até que apareça outra. Aproveitador! Aproveitador!...
JASÃO               Fica calada...
JOANA               Digo e repito: aproveitador!...
JASÃO               Mulher pára... Não fala besteira... Eu lhe quebro essa cara!
JOANA               O que? Quebra não!...
JASÃO               Agora você vai me ouvir. Eu te deixei porque não gosto de você. Não gosto, porra, e não quero viver contigo. (sai)
JOANA               Não vai, Jasão. Fica mais um pouco. Não, Jasão, por favor, Jasão, não vai agora. (falou isso chorosa; de repente, pára e retoma o controle) Mas eu vou me vingar, isso não fica assim, não...

FIM

Navalha na carne

PLÍNIO MARCOS
Adaptação: Renata Kamla
(1 homem e 1 mulher)
Neusa Sueli é uma prostituta e Vado o seu cafetão, eles moram num quarto alugado de uma pensão de quinta. Depois de uma briga com Veludo, empregado da pensão que roubou o dinheiro que Neusa havia deixado para Vado, Neusa que é apaixonada pelo Vado, questiona sua possível homossexualidade. Ele enfurecido a humilha chamando-a de velha.
VADO                Está me achando bonito, ou me botando quebrante?
NEUSA SUELI   Nojento!
VADO                Eu nunca pensei que você fosse tão chata.
N. SUELI            Eu tenho moral.
VADO                Depois de velha, até eu.
N. SUELI            Velha, não! Só tenho trinta anos.
VADO                De puteiro?
N. SUELI            Canalha!
VADO                Só estou falando a verdade. Você tá velha. Outra noite cheguei aqui, você estava dormindo aí, de boca aberta. Roncava que nem uma velha. Puta troço asqueroso!  Quase vomitei. Porra, nunca vi coisa mais nojenta.
N. SUELI            Estou é cansada. É só isso. Sabe o que é uma noite de viração?
VADO                As meninas tiram de letra. É só abrir as pernas e faturar. Acham moleza. Agora velha cansa à-toa.
N. SUELI            Só porque você quer.
VADO                Mostra os teus documentos.
Vado vai pegar a bolsa de Neusa Sueli e ela o impede.
N. SUELI            Tenho trinta anos.
VADO                Deixa eu ver os papéis.
N. SUELI            Que onda besta!
VADO                Deixa eu ver.
N. SUELI            Não torra a paciência!
VADO                Está com medo?
N. SUELI            Tenho trinta.
VADO                No mínimo cinqüenta anos.
N. SUELI            Fiz trinta no fim do ano passado.
VADO                Deixa eu ver os documentos. (Vado insiste em tirar a bolsa de Neusa Sueli, até que a bolsa se abre, deixando espalhar pelo chão todo o seu conteúdo)
N. SUELI            (No chão, apanhando os objetos espalhados) Pára com isso! Por favor, pára! Será que você não é capaz de lembrar que venho da zona cansada pra chuchu? Hoje foi um dia de lascar. Andei pra baixo e pra cima, mais de mil vezes. Só peguei um trouxa a noite inteira. Um miserável que parecia um porco. Pesava mais de mil quilos. Contou toda a história da puta da vida dele, da puta da mulher dele, da puta da filha dele, da puta que o pariu. É isso que cansa a gente. Às vezes chego a pensar: Poxa será que eu sou gente? Será que eu, você, o Veludo, somos gente? Chego até a duvidar. Isso é uma bosta. Uma bosta!
VADO                É... é mesmo...
N. SUELI            É mesmo o que?
VADO                Você tá uma velha podre. Olha! Olha! Vê, cinqüenta anos!
N. SUELI            Por favor, Vado, Pára com isso!
VADO                Olha bem! Olha bem velhota! Coroa!
N. SUELI            Vado chega! Chega!
VADO                Cem anos! Cem anos! Quanta ruga! Que cara amassada! Que bagaço!
N. SUELI            Chega! Não agüento mais! Chega!
VADO                Chega mesmo! Sou um cara boa pinta, não vou perder minha mocidade ao lado de um bagaço. Cadê a grana, sua vaca? Onde está a grana de hoje?
N. SUELI            Vou te dar a grana. (Pega o dinheiro) Está aí todo o dinheiro que tenho. Pronto é seu. Está contente?
VADO                Tá legal. Assim é que é. Agora tchau. (Vado sai)
N. SUELI            Vado!... Vado!... Você vai voltar?... Você vai voltar?...

FIM

Nossa vida em família
ODUVALDO VIANNA FILHO
Adaptação : Beto Marcondes
(1 homem e 2 mulheres)
Lu é uma senhora de idade, que perdeu sua casa e vive temporariamente na casa de um dos filhos no Rio, enquanto seu marido, Souza, está na casa de uma filha em São Paulo. Acaba de receber a notícia de que o filho e sua nora, Jorge e Anita, pretendem mandá-la para um asilo
LU                      (Lu fica tonta com a notícia. Vai ao telefone. Disca) Por favor queria falar com o Sousa em São Paulo ... consertos aí?... 101? disco 101? (desliga. Disca) Queria falar com São Paulo, preciso falar com o Sousa... O nú­mero? um momento, vou ver... pois não, eu chamo depois...
Desliga, vai para o quarto. Entram Anita e Jorge.
JORGE              Não vou falar com ela, Anita, por favor...
ANITA                Por favor, peço eu, Jorge, você é que tem de falar, não faça ela me odiar ainda mais...
JORGE              Não vou conseguir... vou embora ...
ANITA                Você tem de me poupar, Jorge ...
JORGE              Vou embora.
ANITA                Dona Lu, Dona Lu, a gente já chegou. (Tem­po. Lu aparece)
JORGE              Oi, mãe ... senta aqui.,.
LU                      Como foi o aniversário de sua amiga, Anita?
JORGE              Mãe, olha... o médico pediu pra papai ir pra Brasília, que o clima é bom. .. A Mariazinha disse que pode ficar com ele...
LU                      Ah, que ótimo. Quanto tempo?
JORGE              ... não sei ...
LU                      Ah, sim.
JORGE              Papai vem pra cá amanhã antes de ir pra Bra­sília... eu aluguei... a gente, todos ... nós alugamos um hotel pra vocês ficarem juntos um dia ... depois o pai vai ...
LU                      Ótimo.
JORGE              ... tem outra coisa que eu preciso falar com você, mãe...
Tempo. Jorge sai correndo pela porta da rua.
LU                      Você tem idéia do que ele queria me dizer?
ANITA                ... é que há duas soluções... a senhora ficar num quarto, procuramos muito, achamos um... e vir fazer as refeições aqui... e a outra... é a senhora ir para um retiro... um lugar razoável ...
LU                      Quer dizer que eu tenho de escolher entre um quarto longe do refeitório e um quarto perto do refeitório... acho que prefiro o perto ... Por que o Sousa não pode ficar comigo?
ANITA                No quarto, a pessoa não aceita um senhor tão idoso... no retiro, não há vaga...
LU                      ... vocês vão me visitar lá, não vão, Anita?
ANITA                Claro.
LU                      ... e a gente pode sair?... uma vez ou outra vir aqui?
ANITA                Claro. 
LU                      ... vou ter de lavar umas roupas... o fecho da minha mala está soltando... dessa vez vou tomar coragem e jogar algumas coisas fora... (saindo) Ninguém conta isso pro Souza heim?
ANITA                !?!
FIM

O beijo no asfalto
NELSON RODRIGUES
Adaptação: Alex Capelossa
(2 homens)
Arandir é casado com Selminha. Aprígio é pai de Selminha. Arandir é assunto nos jornais por ter dado beijo na boca de um homem desconhecido no seu momento de morte. Aprígio vai ao seu encontro para fazer-lhe uma revelação.
APRÍGIO            Vim aqui para...
ARANDIR          Está satisfeito? O senhor é um dos responsáveis. O senhor que está por trás?
APRÍGIO            Quem sabe?
ARANDIR          Por trás desse repórter. Ou pensa que eu não sei? Selminha me contou tudo! O senhor fez insinuações a meu respeito!
APRÍGIO            Pode falar?
ARANDIR          O senhor fez tudo pra me separar da Selminha! O senhor não queria nosso casamento!
APRÍGIO            (violento) Escuta Vim aqui saber! Você conhecia esse rapaz?
ARANDIR          (desesperado) Nunca vi.
APRÍGIO            Era um desconhecido?
ARANDIR          Juro! Por tudo que há de mais! Que nunca, nunca!
APRÍGIO            Mentira!
ARANDIR          (desesperado) Vi pela primeira vez!
APRÍGIO            Cínico! (feroz) Escuta! Você conhecia o rapaz. Conhecia. Eram amantes! E você matou. Empurrou o rapaz!
ARANDIR          (violento) Deus sabe!
APRÍGIO            Eu não acredito em você. Ninguém acredita. Os jornais, as rádios! Não há mais uma pessoa em toda cidade. Ninguém!
ARANDIR          Ninguém acredita, mas eu! Eu acredito, acredito em mim! Selminha há de acreditar!
APRÍGIO            (fora de si) Cala a boca! (muda o tom) Eu te perdoaria tudo! Eu perdoaria o casamento! Ainda agora, eu estava na porta ouvindo você tentando seduzir a minha filha menor!
ARANDIR          Nunca!
APRÍGIO            Mas eu perdoaria. Perdoaria tudo. (mais violento) Só não perdôo o beijo que você deu na boca de um homem!
ARANDIR          (para si mesmo) Selminha!
APRÍGIO            (suplicante) Pela última vez, diz! Eu preciso saber! Vocês eram amantes?
ARANDIR          Vou buscar a minha mulher.
APRÍGIO            (recua puxando o revólver) Não se mexa! Fique onde está!
ARANDIR          (atônito) O senhor vai.
APRÍGIO            Você era o único homem que não podia se casar com a minha filha! O único!
ARANDIR          O senhor me odeia porque deseja a própria filha. É paixão. Carne. Tem ciúmes de Selminha.
APRÍGIO            (num berro) De você! (estrangulando a voz) Não de minha filha. Ciúmes de você! Sempre. Desde o teu namoro, que não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria teu nome a teu cadáver. Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijou um homem na boca? Mas eu direi o teu nome a teu cadáver. (atira, Arandir cai. Atira novamente) Arandir! Arandir!

FIM

O pagador de promessas
Dias Gomes
Adaptação: Renata Kamla
(2 homens)
Zé um homem simples do campo, ao perceber o seu melhor amigo, o burro Nicolau doente, se desespera e vai a um terreiro de candomblé onde faz uma promessa a Iansã para salvar o seu amigo da morte: Levar uma cruz tão pesada como a de Cristo até a igreja de Santa Bárbara e colocá-la no altar e dividir suas terras com os outros lavradores mais necessitados. Após a cura do animal, Zé precisa cumprir sua promessa.
São seis da manhã, o padre está abrindo a igreja e se depara com Zé do Burro e sua cruz, que depois de andar sete léguas até chegar a capital onde fica a igreja de Santa Bárbara tenta cumprir a promessa.
                      Padre, eu gostaria de falar com o senhor.
Padre              Agora está na hora da missa. Mais tarde, se quiser...
                      É que eu vim de muito longe, Padre, andei sete léguas.
Padre              Sete Léguas? Para falar comigo?
                      Não, pra trazer essa cruz.
Padre              E como a trouxe, num caminhão?
                      Não, Padre, nas costas.
Padre              Promessa.
                      Pra Santa Bárbara. Estava esperando abrir a igreja. Graças a Santa Bárbara a morte não levou o meu melhor amigo.
Padre              Não lhe parece um tanto exagerada e pretensiosa essa promessa?
                      Quando o Nicolau adoeceu, o senhor não calcula como eu fiquei.
Padre              Foi por causa desse... Nicolau, que você fez a promessa?
                      Foi. Nicolau foi ferido por uma árvore que caiu, num dia de tempestade, começou a tremer de febre e no dia seguinte aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido: eu saí de casa e Nicolau ficou. Todo mundo reparou, porque quem quisesse saber onde eu estava, era só procurar Nicolau. Se eu ia a missa, ele ficava esperando na porta da igreja...
Padre              Na porta? Por que ele não entrava? Não é católico?
                      Tendo uma alma tão boa, Nicolau não podia deixar de ser católico. Mas não é por isso que ele não entra na igreja. È por que o vigário não deixa. Nicolau teve o azar de nascer burro.
Padre              Burro?! Então esse... que você chama de Nicolau, é um burro?! Um animal?!
                      Meu burro, sim senhor.
Padre              E foi por ele, por um burro, que fez essa promessa?
                      Foi. Eu já estava começando a perder a esperança. Nicolau de orelhas murchas, magro, não comia, nem mexia mais o rabo pra espantar as moscas. Eu vi que nunca mais ia ouvir os passos dele me seguindo por toda parte, como um cão. Até me puseram um apelido por causa disso: Zé do Burro. Eu não me importo.
Padre              Continue.
                      Foi então que comadre Miúda me lembrou: Por que eu não ia ao candomblé de Maria de Iansan?
Padre              Candomblé?!
                      Sim. Contei pra mãe de santo o meu caso. Ela disse que era mesmo com Iansan, dona dos raios e trovoadas. Iansan tinha ferido Nicolau e pra ela eu devia fazer uma obrigação, quer dizer, promessa. E eu me lembrei que Iansan é Santa Bárbara e prometi que se Nicolau ficasse bom eu carregava uma cruz de madeira de minha roça até a igreja dela, no dia de sua festa, uma cruz tão pesada como a de Cristo.
Padre              Tão pesada quanto a de Cristo. O senhor prometeu isso a...
                      A Santa Bárbara.
Padre              A Iansan!
                      É a mesma coisa...
Padre              Não é a mesma coisa!!!!!!
                      Prometi também dividir minhas terras com os lavradores pobres, mais pobres que eu.
Padre              Dividir? Igualmente?
                      Sim, Padre Igualmente.
Padre              E o Burro, ficou bom?
                      Sarou em dois tempos. Milagre. Milagre mesmo.
Padre              Mesmo admitindo a intervenção de Santa Bárbara, não se trataria de um milagre, mas de uma graça. O burro podia ter se curado sem intervenção divina.
                      Como, padre, se ele sarou de um dia pro outro...
Padre              E além disso, Santa Bárbara, se tivesse de lhe conceder uma graça, não iria fazê-lo num terreiro de candomblé!
                      Mas no Candomblé tem uma imagem de Iansan que é Santa Bárbara...
Padre              Não é Santa Bárbara! Santa Bárbara é uma santa católica. Invocou uma falsa divindade e foi a ela que prometeu esse sacrifício!
                      Não padre, foi a Santa Bárbara. Foi até a igreja de Santa Bárbara que prometi vir com minha cruz!
Padre              Não se pode servir a dois senhores, a Deus e ao Diabo! Um ritual pagão, que começou num terreiro de candomblé, não se pode terminar na nave de uma igreja!
                      Mas Padre...
Padre              A igreja é a casa de Deus. Candomblé é o culto do Diabo!
                      Padre, eu não andei sete léguas pra voltar daqui. O senhor não pode impedir a minha entrada. A igreja não é sua, é de Deus!
Padre              Vai desrespeitar a minha autoridade?
                      Padre entre o senhor e Santa Bárbara eu fico com Santa Bárbara.
Padre              Vou fechar a porta da igreja. Quem quiser assistir à missa que entre pela porta da sacristia. Lá não passa essa cruz. (entra na igreja e fecha a porta)

FIM

Os Sete Gatinhos
Nelson Rodrigues
Adaptação: Alex Capelossa
(2 homens)
Silene, a mais nova de cinco irmãs, volta para casa após ter sido expulsa do colégio interno por ter matado (a pauladas) uma gata que parira sete gatinhos. O Dr. Bordalo examina Silene e constata que ela está grávida. As quatro irmãs de Silene se prostituem para que ela tenha um ótimo enxoval e se case virgem.
Silene está grávida de Bibelô – homem casado com uma doente terminal – que é amante de sua irmã. Noronha já havia prostituído as outras irmãs de Silene e fará o mesmo com ela.
NORONHA        (entrando após o médico examinar Silene) Então, doutor? Tudo O.K.?
BORDALO        Noronha sei que você gosta muito de Silene.
NORONHA        Silene é tudo pra mim!
BORDALO        E, naturalmente, você é um pai compreensivo!
NORONHA        Silene faz de mim gato e sapato!
BORDALO        É o seguinte: apertei sua filha, mas ela nega.
NORONHA        Nega o que?
BORDALO        Nega e eu compreendo. É normal que a mulher comece negando. Mas, finalmente, Silene tem ou não tem namorado?
NORONHA        Claro que não!
BORDALO        Nem teve?
NORONHA        Nunca! Posso lhe afirmar, com toda segurança!
BORDALO        Mas Silene tem namorado, sim, senhor, lá isso é que tem!
NORONHA        Absolutamente! Nem pode ter, doutor. Uma menina que vive no colégio interno! Não pode ter namorado?
BORDALO        Então quem é o pai?
NORONHA        (atônito) Que pai?
BORDALO        Com licença, Noronha. Vamos esclarecer isso, direitinho. Quando examinei Silene, pensei que você me tivesse chamado porque, afinal... mas não sabe, nem desconfia de nada?
NORONHA        (atônito) Continue.
BORDALO        Sua filha já vai para o terceiro mês.
NORONHA        O senhor quer dizer que Silene...
BORDALO        (lento) Está grávida.
NORONHA        (segurando no médico) Mentira! Diga, doutor, que é mentira!
BORDALO        Quanto à gravidez, não há dúvida. É certo. Eu a examinei. Trate de descobrir o responsável e providenciar o casamento.
NORONHA        O senhor diz que Silene não é mais virgem? Deixou de ser virgem?
BORDALO        Noronha, não exageremos. Você está exagerando. Hoje em dia a virgindade não tem mais essa importância.
NORONHA        (com voz estrangulada) O senhor não entende nada de pureza, de inocência... de tanto adorar minha filha, eu descobri que, entre todas as meninas da Terra, só ela é virgem e só ela é menina... mas se está grávida...
BORDALO        Infelizmente.
NORONHA        (num soluço) A sem-vergonha! (vai saindo)
BORDALO        Você não vai fazer violência nenhuma. Lembre-se que o dever do pai é proteger e perdoar.
NORONHA        (irônico) Obrigado pelo sermão.
BORDALO        Não é sermão. É preciso descobrir o pai. Arranque um nome. Inclusive, eu falo com o rapaz. Quer que eu chame Silene aqui? Não acha melhor conversarmos aqui?
NORONHA        Na sala, tem que ser na frente de toda família. Venha doutor. Vamos.

FIM

Quando as máquinas param
PLÍNIO MARCOS
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 1 mulher)
Zé e Nina são jovens, se amam e se respeitam.  Juntos já construíram algumas coisas, casaram, alugaram uma casa e planejam formar uma família estável e com filhos. Ambos adoram crianças. Nina gosta de novelas. Zé adora  jogar futebol com os moleques e é um torcedor fanático. Ela costura para fora e ele é operário, mas está desempregado. O casal vive sob as difíceis circunstâncias sociais que limitam os seus sonhos. Os acontecimentos decorrentes desta limitação financeira – como a ajuda financeira dada pela mãe de Nina – ferem o orgulho de Zé e abalam a relação dos dois. Em meio a tudo isso, Nina descobre que está grávida e conta para Zé, ele fica feliz num primeiro momento, mas ao sair de casa para procurar emprego e, mais uma vez voltar frustrado para casa, ele muda de ideia.
ZÉ                      (entra sem falar nada)
NINA                  (arrumando a mesa para o jantar)
ZÉ                      (depois de um tempo) Nina... você vai tirar esse filho.
NINA                  Não entendi.
ZÉ                      Você vai tirar esse filho.
NINA                  Zé, você está falando sério?
ZÉ                      Com essas coisas não se brinca.
NINA                  Você está louco.
ZÉ                      Nunca estive tão ligado. Por isso mesmo é que não quero filho.
NINA                  Só que eu não estou entendendo. Você gosta tanto de criança.
ZÉ                      Por isso mesmo não quero que esse aí nasça. Nascer pra que? Pra viver na merda?
NINA                  E a criança, Zé? Pensa na criança!
ZÉ                      Vira anjo. É melhor pra ela.
NINA                  Isso é pecado.
ZÉ                      Pecado é largar o filho no mundo. Se a gente melhorar, a gente faz outro.
NINA                  Deus castiga a gente.
ZÉ                      Quero que se dane.
NINA                  Mas eu não. É meu filho e vou ter.
ZÉ                      Vai ter uma pinóia!
NINA                  Se você é um frouxo, que tem medo de enfrentar as coisas, eu não tenho. Vou ter meu filho.
ZÉ                      Mulher minha faz o que eu mando.
NINA                  Já disse que vou ter a criança.
ZÉ                      Já disse que não vai e fim.
NINA                  Você não manda em mim.
ZÉ                      Na minha mulher eu mando.
NINA                  Não sou mais sua mulher, então. Não sou mulher de um covarde. Isso é crime e é pecado, antes de tudo.
ZÉ                      Não fale assim comigo! Já estou cansado de te aturar.
NINA                  Vou embora daqui.
ZÉ                      Pra onde você vai?
NINA                  Não é da sua conta!
ZÉ                      Fica aí!
NINA                  Vamos ter o filho, Zé?
ZÉ                      Não! Não vamos ter porra nenhuma!
NINA                  Então eu vou embora!
ZÉ                      Por aqui você não sai.
NINA                  Me deixa ir, Zé! Agora não sou mais sua mulher!
ZÉ                      (empurra Nina)
NINA                  (fora de si) Porco! Nojento! Bruto! Covarde! Sai da frente!
ZÉ                      (impede Nina de sair, ela insiste, dá um soco na barriga de Nina, que se dobra, sempre olhando para Zé)

FIM

Romeu e Julieta
WILLIAM SHAKESPEARE
Adaptação: Mônica Granndo
(4 homens)
Benvólio, Mercuccio são amigos de Romeu Montecchio, que é inimigo de Teobaldo Capuleto. Romeu já está casado com Julieta, mas nem todos sabem.
BENVÓLIO        Lá vem Teobaldo.
MERCUCCIO    O que importa?
TEOBALDO      Cavalheiros, bom dia: uma palavra.
MERCUCCIO    Só uma palavra com um de nós? (rindo) É melhor um golpe e uma palavra.
TEOBALDO      Verá que estarei bem pronto a fazê-lo, se me oferecer a ocasião.
MERCUCCIO    E será que não pode agarrar a ocasião sem ninguém a oferecer? (segurando sua espada).
BENVÓLIO        É melhor que discutam com juízo, ou caiam fora, todos estão olhando.
MERCUCCIO    Gente tem olhos para olhar, que olhem!
(entra Romeu)
TEOBALDO      Fique em paz. O meu homem já vem aí.
MERCUCCIO    Será o caso ele ser “seu homem”!
TEOBALDO      Romeu apesar do amor que lhe dedico tenho que lhe dizer que és um vilão.
ROMEU             Teobaldo em razão de meu amor, e apesar de seu tom de ira, não sou vilão. Portanto, adeus; você não me conhece.
TEOBALDO      Falando assim não apaga o insulto que me lançou; portanto, pare e saque sua espada.
ROMEU             Garanto que jamais o insultei. E o amo mais do que possa imaginar. Então bom Capuleto, nome que honro como o meu próprio, fique satisfeito.
MERCUCCIO    Mas que calma mais vil de desonra! (saca a espada) Alla Stoccata, é a palavra de ordem! Teobaldo, pega-ratos; vamos lá?
TEOBALDO      Ora essa que quer comigo?
MERCUCCIO    Bom rei dos gatos, apenas uma de suas nove vidas. Com essa tenho a intenção de me servir à vontade, e depois, conforme me tratar daqui em diante, resolvo o que fazer com as outras oito. Vai tirar sua espada da bainha, pelas orelhinhas? Vamos logo, para que eu não chegue às suas orelhas antes que o faça.
TEOBALDO      Estou às suas ordens. (saca a espada)
ROMEU             Bom Mercuccio, guarde essa espada.
MERCUCCIO    Vamos, senhor; faça seu passe. (Lutam)
ROMEU             Benvólio, controle essas armas; senhores, parem, isso é ultrajante. Teobaldo, Mercuccio, o Príncipe proibiu essas lutas em Verona. Pare, Teobaldo! Pare, bom Mercuccio!
(Teobaldo, por baixo do braço de Romeu; atinge Mercuccio)
MERCUCCIO    Estou ferido.
BENVÓLIO        Está ferido?
MERCUCCIO    É só um arranhão, mas é o bastante. Um médico, quero um médico!
ROMEU             Coragem homem; o corte é pequeno.
MERCUCCIO    Não é tão fundo quanto um poço e nem tão largo quanto uma porta de igreja, mas é o bastante. Procure-me amanhã e me verão sério como um túmulo. Estou liquidado. Malditas as suas casas. Pelas chagas de Cristo, um cão, um gato, um rato, mataram um homem com um arranhão. Por que raios veio meter-se entre nós Romeu?
ROMEU             Pensei fazer o melhor!
(Pausa)
BENVÓLIO        O Bom Mercuccio está morto, Romeu; seu bravo espírito subiu pras nuvens cedo demais, deixando a nossa terra.
ROMEU             Maldito o fado deste dia, então. Começa aqui a dor que outros terão.
BENVÓLIO        Lá está Teobaldo, ainda furioso.
TEOBALDO      Era ousado esse seu comparsa, é você quem irá.
ROMEU             Pois vamos ver.
(Lutam e Teobaldo cai)
BENVÓLIO        Fuja logo, Romeu. Teobaldo está morto! Se você for apanhado terá pena de morte. Fuja logo!
(Romeu sai)

FIM

Sonho de uma Noite de Verão
William Shakespeare
Adaptação: Alex Capelossa
(2 homens e 2 mulheres)
LIsandro foge com Hérmia para casar em outra cidade atravessando a floresta. Demétrio o segue para conquistar o coração de Hérmia,e esse também é seguido por Helena. Lisandro e Demétrio enfeitiçados apaixonam-se por Helena e passam a persegui-la e disputam seu amor, causando uma grande confusão. Entram Helena e Lisandro.
LISANDRO        Por que imagina que te namoro por troça? Juro te amar e esta jura traz o distintivo da lealdade!
HELENA            Que lealdade é essa que assassina a outra? Estas juras pertencem a Hérmia!
LISANDRO        Não estava no meu juízo perfeito quando jurei amor a Hérmia.
HELENA            É agora que não está, se a despreza.
LISANDRO        Demétrio ama Hérmia e ele não te ama.
DEMÉTRIO       (acordando enfeitiçado e vê Helena) Helena! Oh, Deusa da perfeição divina! Deixe-me beijar esta maravilha, esta princesa!
HELENA            Oh, que raiva! Que inferno! Vejo que fizeram um acordo para zombar de mim! Rivais por Hérmia, agora querem me disputar. Nenhum homem decente ofenderia uma donzela, nem por brincadeira!
LISANDRO        Não seja cruel, Demétrio. Ama Hérmia, e de todo coração, cedo-lhe a minha parte em seu amor; mas deixa-me o de Helena, a quem eu amo e amarei até a morte.
HELENA            Vocês estão me zombando?!
DEMÉTRIO       Fica com a tua Hérmia, Lisandro; se algum dia a amei, foi um amor passageiro, mas agora, regressando a Helena, para sempre a amarei.
LISANDRO        Não é verdade, Helena.
DEMÉTRIO       Não fala de um sentimento que ignora, ou pode lhe custar caro. (entra Hérmia) Olha: ai vem o teu amor; é aquela a tua querida.
HÉRMIA             Meus ouvidos me guiaram para a tua voz... por que me deixou de forma tão cruel Lisandro?
LISANDRO        Porque ficaria se o amor me mandava partir.
HÉRMIA             Que amor pode ter mandado Lisandro para longe de mim?
LISANDRO        Helena é o amor que arrebatou Lisandro! Por que me procura? Não compreende que foi a aversão que me obrigou a deixá-la?
HÉRMIA             Não fala o que pensa, não é possível.
HELENA            Vejam outra que faz parte da conspiração! Agora entendo... os três se uniram para fazer esta brincadeira comigo. Maldosa, Hérmia! Amiga ingrata! Está traindo nossa amizade, para se juntar a estes dois. Falsa! Isto insulta nossa relação!
HÉRMIA             Que palavras são estas? Eu não insultei ninguém; você é que está me insultando!
HELENA            Não foi você que induziu Lisandro, a vir atrás de mim se declarando? E o teu outro namorado, Demétrio, que ainda agora me chutava, não mandou chamar-me de Deusa, preciosa, e outras coisas? Tenho menos sorte no amor que você, amo sem ser amada? Isso não te dá o direito de desprezar-me.
HÉRMIA             Não entendo o que quer dizer com tudo isto.
HELENA            Está bem, continua, uma brincadeira tão bem tramada. Se tivessem um mínimo de delicadeza, não teriam feito isso.
HÉRMIA             Espera, ouve a minha defesa, Helena!
HELENA            Ah! Que lindo!
HÉRMIA             (para Lisandro) Não zombe dela, querido.
DEMÉTRIO       (para Hérmia) Se não convencê-lo, eu sei como obrigá-lo. (mostrando a espada)
LISANDRO        Nem você nem ela podem me convencer. Helena, eu te amo. Juro por minha vida, a qual estou disposto a perder por você, se alguém desmentir este amor.
DEMÉTRIO       Eu afirmo que te amo mais do que ele é capaz.
LISANDRO        Se está afirmando, vem comigo e prova. (vai saindo)
DEMÉTRIO       Vem depressa então! ( vai saindo também)
HÉRMIA             (segurando Lisandro) Lisandro, aonde quer chegar com isto?
LISANDRO        Sai, grude!
DEMÉTRIO       Está fingindo, que ela está te segurando, para não me seguir... você é um homem ou um saco de batatas?
LISANDRO        (para Hérmia) Solta, carrapato! Me larga ou te jogo longe!
HÉRMIA             Por que se tornou tão grosseiro? Que mudança foi esta meu amor?
LISANDRO        Teu amor! Vai se olhar no espelho! Some peçonhenta!
HÉRMIA             Mas não está brincando?
HELENA            É claro que está! E você também.
LISANDRO        Demétrio, cumprirei a minha palavra.
DEMÉTRIO       Como posso acreditar na tua palavra, se basta uma mulher para segurá-lo.
LISANDRO        O que você quer que eu faça? Quer que eu bata, mate? Embora eu a odeie, não quero fazer-lhe mal.
HÉRMIA             E que mal maior pode fazer do que odiar-me? Odiar-me e porquê? Que novidade é essa, meu amor? Não sou Hérmia? Não é Lisandro? Se agora pouco me amava... se bem que me abandonou. Por que?
LISANDRO        Não queria mais te ver. Por isso põe de lado qualquer esperança. Pode estar certa, porque afirmo que te odeio e amo Helena.
HÉRMIA             (furiosa para Helena) Ah, impostora, parasita, ladra de amor! Então veio de noite roubar o coração do meu Lisandro?
HELENA            Bonito! Agora quer arrancar da minha boca palavras de ira? Não tem vergonha? Falsa mulher, fantoche?
HÉRMIA             Fantoche! Ah, então andou comparando nossas alturas. Fez valer o seu tamanho e dominou Lisandro. Posso ser baixinha, mas ainda assim posso enfiar minhas unhas em seus olhos.
HELENA            (fugindo) Por favor senhores, apesar de estarem brincando comigo, não deixem que ela me faça mal. Não tenho jeito para briga, mesmo que ela seja um pouco mais baixa...
HÉRMIA             Mais baixa! Estão vendo? Outra vez!
HELENA            Querida Hérmia, não seja tão má para mim. Sempre gostei de você, sempre guardei teus segredos... exceto quando por amor a Demétrio, revelei a tua fuga para o bosque. Ele veio atrás de você e eu vim atrás dele. Agora se me deixar eu voltarei a Atenas.
HÉRMIA             Pois vai. Quem está te impedindo?
HELENA            Um doido coração que deixo atrás de mim.
HÉRMIA             (furiosa) Como! Com Lisandro!
HELENA            Com Demétrio.
LISANDRO        Não tenha medo, Helena. Ela não te fará mal.
HELENA            Ah, é que quando ela se zanga torna-se uma fera. Já na escola era uma raposa, apesar de ser pequena é uma fera.
HÉRMIA             “Pequena” outra vez! Só me chama de “pequena e baixinha!”. Por que deixam ela fazer isto comigo? Deixe-me pegá-la!
LISANDRO        Sai daí anã, enguiço! Oh, criatura enfezada!
DEMÉTRIO       É bem solícito com quem desdenha. Deixe Helena em paz. Não tome a sua defesa porque você pode se dar mal.
LISANDRO        Agora que Hérmia me soltou, me segue, e veremos qual de nós dois tem mais direito a Helena.
DEMÉTRIO       Seguí-lo? Não; irei lado a lado contigo.
(Lisandro e Demétrio saem)
HÉRMIA             A senhora que é a causadora disso tudo; não vá embora.
HELENA            Não sou eu que vou ficar aqui na tua companhia maldita. Se as tuas mãos são mais rápidas para brigar, minhas pernas são mais longas para fugir. (sai)
HÉRMIA             Ah! Você me paga! (sai)

FIM

Um bonde chamado desejo
Tennessee Willians
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 2 mulheres)
Jantando. Comemoração do aniversário de Blanche.
BLANCHE         Não sei o que há que estamos todos tão solenes. Será que é por que meu namorado me abandonou?  É a primeira vez em toda minha experiência com os homens, que alguém me abandona. Eu não sei o que fazer... mas conte-nos uma história, Stanley. Alguma coisa engraçada que nos faça rir.
STANLEY          Eu não sabia que você gostava das minhas histórias, Blanche.
BLANCHE         Gosto delas quando são divertidas, mas não indecentes.
STANLEY          Não sei nenhuma para seu gosto.
STELA               O senhor Kowalski está demasiado ocupado em se engordurar e se emporcalhar um pouco para pensar no que quer que seja!
STANLEY          É isso mesmo, meu bem.
STELA               Seu rosto, seus dedos, dão nojo, de tão engordurados. Vá lavar-se e venha tirar a mesa.
STANLEY          É assim que vou tirar a mesa! (joga tudo no chão com violência) Nunca mais fale assim comigo! Quem pensam que são? Um par de rainhas? Lembrem-se do que Huey Long disse: “Cada homem é um rei!” E eu sou rei aqui dentro, é bom que não se esqueçam disso. Meu lugar está limpo. Querem que eu limpe o de vocês? (sai)
BLANCHE         Que aconteceu quando eu estava no banho, meu bem? Que foi que ele lhe disse, Stela?
STELA               Nada, nada, nada!
BLANCHE         Eu acho que ele disse qualquer coisa a você sobre Mitch. Você sabe por que Mitch não veio, mas não quer dizer. Vou telefonar para ele. (sai)
STELA               Gostaria que você não fizesse isso.
BLANCHE         Eu quero que alguém me de uma explicação! (sai)
STANLEY          (volta) Stela, tudo vai ficar bem, depois que ela for embora e que você tiver o bebê. Tudo vai ficar bem, de novo, entre eu e você como era antes. Lembra-se como era? Como vai ser bom, quando a gente puder fazer barulho de noite, como nós fazíamos, sem nenhuma irmã atrás das cortinas para ouvir a gente!
STELA               (pega o bolo) Venha para cá, Blanche! (acendendo as velas)
BLANCHE         Já vou. Ele não está. Oh! Tão bonitas! Não as acenda todas, Stela.
STELA               É claro que vou acendê-las.
BLANCHE         Você devia guardá-las para os aniversários do bebê. Espero que muitas velas brilhem na sua vida e que seus olhinhos sejam como duas velas azuis num bolo branco.
STANLEY          (debochado) Que poesia! (sai para pegar uma cerveja)
BLANCHE         Eu não devia Ter telefonado para Mitch.
STELA               Pode ter acontecido uma porção de coisas.
BLANCHE         Isso não tem desculpa, Stela. Não estou disposta a aturar insultos. Não sou tão fácil assim. Que é que há com você? Por que me olha com esse ar de piedade?
STANLEY          (entra) Querida Blanche tenho uma lembrancinha de aniversário para você.
BLANCHE         Tem, Stanley? Muito gentil, eu não estava esperando nada. Eu... eu não sei por que Stela quis comemorar meu aniversário! Eu bem que preferia esquecê-lo. Quando a gente faz vinte e sete anos, a idade é... bem... um assunto que a gente prefere... ignorar!
STANLEY          Vinte e sete? (entrega-lhe um envelope)
BLANCHE         O que é isso? É para mim?
STANLEY          Sim. Espero que você goste.
BLANCHE         O que é? Diga o que é.
STANLEY          Passagem de volta para Laurel! No ônibus de Terça-feira!
BLANCHE         (sai chorando)
STELA               Você não precisava fazer isso!
STANLEY          Você já esqueceu tudo que agüentei dela?
STELA               Não precisava ser tão cruel com uma criatura assim, sozinha no mundo.
STANLEY          Quando nós nos vimos pela primeira vez, eu e você, você me achou vulgar. Você acertou minha filha. Eu era vulgar mesmo. Era sujo. Você me mostrou o retrato da casa com as colunas. Eu tirei você de cima daquelas colunas, e você gostou!... E não fomos felizes juntos? Não estava tudo certo até que ela chegou? Metida a besta, dizendo que eu era um gorila. (saindo)
STELA               Você pensa que vai jogar boliche agora?
STANLEY          É claro que vou.
STELA               Você não vai jogar boliche. Por que fez isso com ela?
STANLEY          Não fiz nada a ninguém. Me larga. (sai)
STELA               ( ... ?!)

FIM

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