A serpente
NELSON RODRIGUES
Adaptação: Alex Capelossa
(2 mulheres)
GUIDA (na cama de Lígia esperando por ela)
LÍGIA Você era a última pessoa que eu podia ver neste momento.
GUIDA E é só isso que você tem para me dizer?
LÍGIA Depois conversamos.
GUIDA Por que não agora?
LÍGIA Entenda, Guida. Agora eu não estou em condições.
GUIDA Quer dizer que você não tem nada para me dizer?
LÍGIA Nada. (Guida está saindo) Perdão.
GUIDA Vai falar?
LÍGIA Tenho tanto, tanto para te dizer. (pausa) Você é tão melhor do que eu e Paulo tão melhor que nós duas.
GUIDA Melhor do que eu?
LÍGIA Não, Guida. Ninguém é melhor do que você. Nenhuma irmã faria isso por outra irmã.
GUIDA Lígia.
LÍGIA Não me pergunte nada.
GUIDA Novamente com vergonha de mim?
LÍGIA (não responde)
GUIDA Agora, responde: você se arrependeu?
LÍGIA Sim!
GUIDA Sua mentirosa.
LÍGIA Quer saber, quer? Sou mentirosa, sim. O que eu senti foi tudo, a vida e a morte. Agora posso viver e posso morrer.
GUIDA (sai)
LÍGIA (fica só no quarto)
FIM
O beijo no asfalto
NELSON RODRIGUES
Adaptação: Alex Capelossa
(2 mulheres)
D. MATILDE (entrando) Licença?
SELMINHA Ah, entre D. Matide.
D. MATILDE Bom dia! Bom dia! (mostrando o jornal) Já leu?
SELMINHA O resultado das misses?
D. MATILDE Não leu? (radiante por ser portadora da novidade) O retrato do seu marido, D. Selminha!
SELMINHA De Arandir? Onde? (apanhando o jornal)
D. MATILDE (satisfeita) Primeira página!
SELMINHA É mesmo!
D. MATILDE O título!
SELMINHA O BEIJO NO ASFALTO! (muda de tom) E aqui o Arandir na delegacia!
D. MATILDE Aí diz uns troços que! Bem. Tem um repórter na rua, querendo saber se a senhora vive bem com seu Arandir. Eu disse: “vive”.
SELMINHA (numa explosão) Nunca! Nunca! Mentira! Tudo mentira! (descontrolada) Estou tinindo D Matilde, tinindo! Como é que um jornal diz que o Arandir beijou o rapaz na boca!
D. MATILDE Esse jornal é muito escandaloso!
SELMINHA Não quero ler mais nada! (devolve o jornal) Estou até com nojo! Nojo! E na boca de desconhecido.
D. MATILDE O morto não é um que veio aqui uma vez?
SELMINHA Na minha casa?
D. MATILDE Na sua casa. Aqui!
SELMINHA A senhora está me chamando de mentirosa, D Matilde?
D. MATILDE Deus me livre! A senhora não entendeu. Eu não ponho em dúvida. Absolutamente. Mas há uma parte do jornal que a senhora não leu.
SELMINHA Quer fazer um favor?
D. MATILDE Eu vou ler para a senhora. (pega o jornal) É essa parte. O jornal diz: “Não foi o primeiro beijo. Nem foi a primeira vez!”.
SELMINHA (atônita) Não foi o primeiro beijo! Nem foi a primeira vez? ( ... ?! )
FIM
O beijo no asfalto
Nelson Rodrigues
Adaptação: Alex Capelossa
(2 homens)
Quarto de Hotel.
AMADO (Aprígio entra) O senhor é?
APRIGIO O sogro de.
AMADO O sogro, exatamente. Eu estava reconhecendo. Graças a Deus, sou bom fisionomista. Qual é o drama?
APRIGIO Seu Amado, eu desejava, aliás.
AMADO É sobre o beijo no asfalto?
APRIGIO (incerto) Propriamente.
AMADO Meu amigo com licença. O senhor veio me cantar?
APRIGIO Mas cavalheiro!
AMADO Veio me cantar. Claro. Meu amigo, eu sou batata, entende? E não me vendo!
APRIGIO O senhor não me entendeu.
AMADO Sou macaco velho! Essa conversa é velha pra chuchu! Mas olha: o dinheiro não me compra!
APRIGIO O senhor quer me ouvir?
AMADO Agora é tarde! Tarde!
APRIGIO Mas eu ainda não disse nada! Eu queria, justamente.
AMADO O senhor vai dizer que é mentira, não sei o que lá. Não adianta. O jornal está rodando. Tem uma manchete do tamanho de um bonde. Assim: "O BEIJO NO ASFALTO FOI CRIME! CRIME!
APRIGIO (apavorado) Crime?
AMADO Crime. "e eu provo" Quer dizer, sei lá se provo, nem me interessa. Mas a manchete está lá, com todas as letras: CRIME!
APRIGIO Mas eu não entendo!
AMADO Você não me compra. (rindo) Eu não me vendo! O negócio é bem bolado pra chuchu! Botei que teu genro empurrou o rapaz, o amante, debaixo do lotação. Assassinato. Ou não é? (maravilhado) A pederastia faz vender jornal pra burro! Tiramos, hoje está rodando, trezentos mil exemplares! Crime, batata!
APRIGIO (incisivo) Tem certeza?
AMADO São outros quinhentos! Sei lá! A única coisa que sei é que estou vendendo jornal como água. Pra chuchu.
APRIGIO Já vou.
AMADO Vem cá. Escuta aqui. Se eu fosse você, um pai, se tivesse uma filha e uma filha casasse com um cara assim, como o... entende? Palavra de honra! Dava-lhe um tiro na cara!
APRIGIO Você quer vender mais jornal?
AMADO (com seriedade de bêbado) Fora de brincadeira. Sério. E olha, a absolvição seria a maior barbada. Nenhum juiz te condenaria, nenhum!
APRIGIO Bêbado imundo! (abandona o quarto como se fugisse)
AMADO (num berro) Mas parei a cidade! Só se fala do "Beijo do Asfalto!” Eles tem que respeitar! Eu não dou bola!
FIM
Homens de papel
PLÍNIO MARCOS
Adaptação: Renata Kamla
(2 homens)
Berrão, trás um revólver na cintura e uma balança de gancho na mão para pesar os sacos de papel de catadores. Jiló é catador de papel e vai pesar os seus sacos depois de um dia de trabalho.
BERRÃO Avança o primeiro.
JILÓ (Jiló avança) Apanhei três sacos.
BERRÃO E daí? O peso é que interessa. (pesa o primeiro saco) Três quilos.
JILÓ Só?
BERRÃO Só por quê?
JILÓ Não foi mole arrastar os sacos até aqui.
BERRÃO É que tu tá podre. Pensa que cachaça sustenta? Tem que comer às vezes.
JILÓ Não bebo.
BERRÃO Come com farinha. (pesa o segundo saco) Dois e meio.
JILÓ Mas tá dando quase três.
BERRÃO Dois e meio, e fim. Se não estiver contente, vai vender em outra parte. (pesa o terceiro saco)
JILÓ Poxa, seu Berrão. Olha aí. Falta só um pouco pra três quilos.
BERRÃO Será que toda vez vou ter que explicar o negócio do arredonda?
JILÓ Não... é...
BERRÃO Então não torra as minhas idéias. Se começar a me aporrinhar, te risco da lista.
JILÓ Me desculpe, falei por falar.
BERRÃO Se não quiser fazer acerto comigo, leva direto pra fábrica. Mas vou avisando, tenho acerto com os caras, se eu falar pra eles não comprarem, eles não compram. Agora, sua cabeça é seu guia. Quer ir lá vender, vai.
JILÓ Não. Sempre fiz acerto com o senhor.
BERRÃO Então pega a grana e cai fora. Já enjoei da tua fuça.
JILÓ (Jiló pega o dinheiro e três sacos vazios e se afasta)
FIM
Bonitinha, mas ordinária
Nelson Rodrigues
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 1 mulher)
RITINHA (sendo puxada por Edgard no cemitério) A culpada sou eu!
EDGARD Chega, Ritinha! Parece matraca!
RITINHA O que é que eu estou fazendo aqui? Você, noivo! E mesmo que não fosse noivo. Eu não posso gostar de ninguém.
EDGARD Ritinha, eu vou te dizer uma coisa. Até hoje, eu só conheci duas mulheres dignas de amor. Uma é minha noiva. Outra – você.
RITINHA Eu?
EDGARD Você.
RITINHA (comovida) Sua noiva, sim. Eu, não.
EDGARD Você também.
RITINHA Você não me conhece.
EDGARD Olha ali. Um túmulo vazio. Vem cá. Chega aqui, Ritinha. (salta para dentro do túmulo)
RITINHA Edgard! Sai daí, Edgard!
EDGARD Pula também! Pula!
RITINHA Deus me livre!
EDGARD É a nossa despedida! Ninguém está vendo! Ritinha, não tem ninguém! Salta!
RITINHA (escorrega para dentro do túmulo) Doido!
EDGARD Eu gosto de você!
RITINHA Mentiroso!
EDGARD Adoro!
RITINHA E sua noiva?
EDGARD Minha noiva, também.
RITINHA Gosta nada! Gosta de ninguém!
EDGARD Escuta, Ritinha. Eu quero te beijar aqui.
RITINHA Não.
EDGARD É o último beijo! O nosso adeus! Eu quero um beijo dado!
RITINHA (insolente) Você quer um beijo? (violenta) Te dou o beijo e o resto! Tudo! Mas de graça, não!
EDGARD De graça, não?
RITINHA Edgard, eu! Eu!
EDGARD Fala!
RITINHA Eu continuaria fingindo se fosse outro. Mas escuta. De você, eu gosto. A professorinha é uma máscara. Eu sou outra coisa. Vou com qualquer um por dinheiro! Não me compare à sua noiva. Eu não chego aos pés da sua noiva.
EDGARD Quer dizer que você é uma.
RITINHA (desesperada) Esse nome, não! Não diz essa palavra! Eu não presto. Posso ser vagabunda, ordinária, tudo o que você quiser. Mas adoro você! Adoro! Nem tua mãe, nem tua noiva! Eu adoro você.
EDGARD ( ...?! )
FIM
O pagador de promessas
Dias Gomes
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 1 mulher)
BONITÃO Espere. Não adianta andar depressa...
MARLI É melhor discutirmos isso em casa.
BONITÃO (torcendo-lhe o braço violentamente) Não, vamos resolver aqui mesmo. Não tenho nada que discutir com você...
MARLI (livrando-se com um safanão) Estúpido!
BONITÃO Ande, vamos deixar de mas-mas. Passe pra cá o dinheiro.
MARLI (tirando do bolso um maço de dinheiro) Não podia esperar até chegar em casa?
BONITÃO (contando o dinheiro) Só deu isso?
MARLI Só. A noite hoje não foi boa. Você viu, o “castelo” estava vazio.
BONITÃO E aquele galego que estava conversando com você quando cheguei?
MARLI Uma boa conversa. Queria se fretar comigo. Ficou mangando a noite toda e não se resolveu...
BONITÃO (mete a mão no decote e tira uma nota) Sua vaca! (ameaça dar uma bofetada)
MARLI Eu precisava desse dinheiro. Pra pagar o quarto, você sabe.
BONITÃO Não gosto de ser tapeado. Por que não pediu?
MARLI E você dava?
BONITÃO Claro que não. (guarda o dinheiro) Isso ia fazer falta no meu orçamento. Tenho compromissos e você bem sabe que não gosto de pedir dinheiro emprestado. É uma questão de feito.
MARLI E eu, que faço pra pagar o quarto? Já devo dois meses e a dona anda me olhando atravessado.
BONITÃO (indiferente) É um problema seu. Tenho muita coisa em que pensar.
MARLI Eu sei, eu sei no que você pensa...
BONITÃO (com um sorriso ameaçador) Penso, por exemplo, que você, de três meses pra cá, está fazendo muito pouco. A Matilde está fazendo quase o dobro...
MARLI (com ciúme) Eu sei, você está dando em cima daquela arreganhada. Ela mesma anda dizendo.
BONITÃO Eu não dou em cima de mulher nenhuma, você sabe disso. É uma questão de princípios.
MARLI Quer dizer que é ela quem está dando em cima de você!
BONITÃO Ela perguntou se eu estava precisando de dinheiro.
MARLI (ansiosa) E você?...
BONITÃO Eu só pedi umas informações de ordem técnica: arrecadação diária etc...
MARLI (agarra-o) Bonitão, você não aceitou o dinheiro dela, aceitou? Você não aceitou o dinheiro daquela vagabunda!
BONITÃO E que tinha, se aceitasse? Eu também preciso viver.
MARLI Mas o que eu lhe dou não chega?
BONITÃO Você compreende, eu também tenho ambições. Se eu não tivesse qualidades, bem. Mas eu sei que tenho qualidades. É justo que viva de acordo com essas qualidades.
MARLI Mas o que lhe falta? Eu não tenho lhe dado tudo que você me pede? Se for preciso, dou mais ainda. Não pense que é por medo de que você me largue pela Matilde, não. É porque eu tenho prazer em ver você vestido com a roupa que eu dei, com os sapatos que eu comprei e com a carteira recheada de notas que eu ganhei pra você. Tenho orgulho, sabe?
BONITÃO (desvencilhando-se) Pois então veja se na próxima vez não esconde dinheiro no decote. Tenho certeza de que a Matilde não é capaz de um gesto feio desses.
MARLI Ela é capaz de coisas muito piores. Se você quiser, eu lhe conto.
BONITÃO Não quero ouvir nada. Quero é que você vá pra casa.
MARLI (decepcionada) Você não vai comigo?
BONITÃO Não, vou ficar mais por aqui. Vá na frente que daqui a pouco eu apareço por lá.
MARLI (enciumada) E o que é que você vai ficar fazendo na rua a uma hora dessas?
BONITÃO Ora mulher, eu preciso trabalhar!
FIM
Nossa vida em família
Oduvaldo Vianna Filho
(2 mulheres)
A cena se passa no apartamento de Jorge e Anita, em Copacabana no Rio de Janeiro. A mãe de Jorge está temporariamente morando com eles. E dividindo o quarto com a neta adolescente. Anita está na sala trabalhando, ela é costureira, a filha Susana de dezessete anos entra na sala pisando duro...
ANITA ... que tanto você vai e vem, Susana? Me distrai aqui... estou ainda fazendo o molde de um vestido que preciso entregar amanhã à noite. (Susana volta) Que foi Susana?
SUSANA A vovó está no banheiro há mais de meia hora, mãe. Deve estar fazendo pipi cota anual.
ANITA Não fala assim, Susana.
SUSANA Preciso sair, mãe, vou para a casa da Leninha estudar.
ANITA Hoje não é dia delas virem aqui?
SUSANA Ah, pois não, e estudamos na cozinha? No elevador? A vovó dorme cedo, você fica trabalhando na sala, papai telefona pros clientes do quarto, sobra o bidê.
ANITA Marca mais cedo com elas, Susana, não quero você saindo toda noite.
SUSANA Ô mãe, não estou encontrando mais com o cara.
ANITA Isso de encontrar ou não, a gente já combinou, que é decisão sua. Agora ficar de vez em quando em casa é decisão minha.
SUSANA A vovó usa um perfume que... oleoso sabe, o quarto fica impregnado... Eu não consigo dormir.
ANITA Deixa de ser enjoada, Susana.
SUSANA Vocês aceitam tudo.
ANITA Fazer o quê?
SUSANA Não, dizer não, assim, não!
ANITA No caso concreto de sua avó, isso significa o quê?
SUSANA Lugares bonitos, lugares para gente de idade ir.
ANITA Não existem esses lugares.
SUSANA Sai pedindo, sai pedindo...
ANITA Enquanto isso, com a sua avó, fazemos exatamente o quê?
SUSANA Está bem, mãe, está bem, deixa ela lá no banheiro. (sai)
FIM
Romeu e Julieta
WILLIAM SHAKESPEARE
Adaptação: Alex Capelossa
(2 mulheres)
JULIETA (esperando a Ama) Já faz tempo que ela partiu. Prometeu-me voltar em meia hora. Talvez não pôde encontrá-lo! Não, impossível. (ouve um barulho) Oh! Está chegando! (Ama entra) Doce Ama, que novas tens? Mesmo que as notícias sejam tristes, diga-as alegremente.
AMA Estou cansada. Deixe-me descansar um pouco. Ai, como meus ossos estão doendo! Que corrida eu dei!
JULIETA Queria que tivesse meus ossos e eu, tuas notícias. (ansiosa) Vamos fale bondosa Ama, fale!
AMA Deus, que pressa! Não pode esperar um pouco? Não está vendo que estou sem fôlego?
JULIETA Como está sem fôlego, se tem fôlego para dizer que está sem fôlego? Tuas notícias são boas ou más? Responda-me? Diga-me e esperarei os detalhes. São boas ou más?
AMA Bem, fez uma escolha inconveniente. Não soube como escolher um homem. Romeu! Não, ele, não. Embora o rosto dele seja melhor do que qualquer homem, contudo possui pernas acima de qualquer comparação. Não é a flor da cortesia, mas estou certa de que é tão gentil quanto um cordeiro. (mudando o tom) Ah! Já jantaram?
JULIETA Não, não. Mas tudo isso eu já sabia. (ansiosa) Que diz ele a respeito de nosso casamento? Que diz?
AMA Senhora estou com a cabeça doendo! Está batendo, como se fosse arrebentar em vinte pedaços!... Ai! Minhas costas, minhas costas! Maldito seja vosso coração, que me manda de um lado para outro, galopando de cima para baixo!
JULIETA Juro que sinto imensamente que não se sintas bem. Querida, querida Ama, diga-me: Que diz meu amor?
AMA Seu amor diz, como honrado cavalheiro, cortês, amável, e posso assegurar-te, como virtuoso... onde está sua mãe?
JULIETA Onde está minha mãe? Ora, está lá dentro! Onde poderia estar? Que estranho modo de responder! “Seu amor diz, como honrado cavalheiro, onde está sua mãe”?
AMA Oh! Pela Virgem Santíssima! Está tão ardente assim? Tudo isto é inflamação para meus doloridos osso? De agora em diante leve os recados pessoalmente!
JULIETA Quanto barulho...! Vamos, que disse Romeu?
AMA Tem permissão para confessar hoje?
JULIETA Tenho.
AMA Então, corre logo para a cela do Frei Lourenço. Lá te aguarda um marido. Corre para a igreja! Deve ir por outro caminho, para arranjar uma escada, pela qual teu amor deve subir quando estiver escuro, há um ninho de pássaro. Vá Corre!
JULIETA Corramos à suprema felicidade! Honrada Ama, adeus.
FIM
Romeu e Julieta
WILLIAM SHAKESPEARE
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 1 mulher)
JULIETA (ao Frei Lourenço que acaba de entrar) Feche a porta, e venha chorar comigo! Não há esperança, não há remédio, não há!
FREI L. Já sei de tuas magoas, Julieta. Sei que te obrigam a casar com o Conde.
JULIETA Se não sabe como me dar auxilio, diga apenas que minha determinação é justa, e com este punhal acabarei com minha alma! (após uma pausa) Não demore a falar! Quero morrer, se o que vai dizer não fala de remédio!
FREI L. Calma, minha filha, vejo uma esperança. Se para não casar com Páris, tem a força de vontade de se matar, terá coragem de experimentar coisa semelhante a morte. Se tem coragem, eu darei o remédio.
JULIETA Para não me casar com Páris, mande que eu me atire do alto de uma torre, e o farei sem temor, para viver esposa imaculada de meu doce amor!
FREI L. Escuta, então. Volta para casa, e dá teu consentimento em casar com Páris. Amanhã, procura ficar só em seu quarto, e quando isto acontecer, beba esse licor até a última gota. Teu pulso deixará de ter a batida natural, nem o calor de teu corpo, nem a respiração, mostrarão que vives. Tudo dará a aparência de que está morta. E assim permanecerá, despertando depois como de um profundo sono. Nesse ínterim, antes que acorde, Romeu será informado por minhas cartas e voltará. E nesta mesma noite Romeu te levará para Mântua.
JULIETA Me de o frasco! Não fale de medo.
FREI L. Toma; agora parte. Vou enviar um mensageiro a Mântua com cartas minhas para teu senhor.
JULIETA Amor, dai-me força e força me salvará! Adeus, querido padre! (sai)
FIM
A legítima e a outra
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
Adaptação: Alex Capelossa
(2 mulheres)
OUTRA (entrando no velório, a legítima está ao lado do moribundo) Querido!
LEGÍTIMA (nem se mexeu)
OUTRA O que você fez com ele? (a legítima ignora) Eu sabia que cedo ou tarde você o mataria! (a legítima continua uma pedra) Só comigo ele tinha o carinho de que precisava. Você fez isso com ele! Você! Com sua frieza, com sua maldade, com sua...
LEGÍTIMA (satisfeita) Nós estávamos fazendo amor.
OUTRA (chocada) Mentira! Mentira!
LEGÍTIMA (triunfante) Ele morreu nos meus braços. (pequena pausa) Morreu nos meus braços, está ouvindo?
OUTRA Despeito! Despeito! Ele só fazia amor comigo.
LEGÍTIMA Sabe quais foram as suas últimas palavras?
OUTRA (tampando os ouvidos) Eu não quero ouvir!
LEGÍTIMA Suas últimas palavras foram “agora cruza”!
OUTRA Não!
LEGÍTIMA Sim! Sim! Nós estávamos fazendo alicate!
OUTRA Não! Alicate, não!
LEGÍTIMA Sim! Tudo o que ele fazia com você, ele fazia em casa. Experimentava em você para fazer comigo.
OUTRA (incrédula) A borboleta também?
LEGÍTIMA A borboleta, a chinesa assobiadora, o baile dos cossacos...
OUTRA (desesperada) Não!
LEGÍTIMA Tudo. Tudo! Você era um campo de provas. Eu era pra valer. Com você era treino. Comigo era pelos pontos!
OUTRA (grita em desespero – aparece uma pessoa para tirá-la de lá – antes de sair) O salgueiro despencado ele não fazia com você!
LEGÍTIMA Fazia! Fazia! (a outra é retirada do velório – sozinha ela sussurra no ouvido do corpo) Joca? (insistindo) Joca? Como era o salgueiro despencado? (após uma pausa, começa a bater no corpo em desespero) Seu safado. Como era o salgueiro despencado?
FIM
Farsa
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
Adaptação: Alex Capelossa
(2 homens e 1 mulher)
MULHER (ergue-se da cama) Meu marido!
AMANTE (levantando-se) O que foi que você disse?
MULHER Eu disse “Meu marido!”.
AMANTE Foi o que pensei, mas não quis acreditar.
MULHER Ele me disse que ia para Curitiba!
AMANTE Talvez não seja ele. Talvez seja um ladrão.
MULHER Seria sorte demais. (barulho) É ele. E vem vindo para o quarto. Rápido, esconda-se dentro do armário!
AMANTE O quê? Não. Tudo menos o armário!
MULHER Então embaixo da cama.
AMANTE O armário é melhor. (entra no armário com as roupas e nota que esqueceu os sapatos, ela vai lhe entregar)
MARIDO (entrando) Com quem é que você estava conversando?
MULHER Eu? Com ninguém. Era a televisão. E você não disse que ia para Curitiba?
MARIDO Espere. Aqui no quarto não tem televisão.
MULHER Não mude de assunto. O que é que você está fazendo em casa?
AMANTE (começa a rir no armário)
MARIDO Que barulho é esse?
MULHER Não interessa. Por que você não está em Curitiba?
MARIDO Não precisei ir, pronto. Estes sapatos... (começa a tirar os sapatos)
AMANTE (passa do riso ao gelo)
MARIDO (vai ao banheiro)
MULHER (pega os sapatos do marido e entrega ao amante)
MARIDO Estes sapatos...
MULHER O que é que tem?
MARIDO De quem são?
MULHER Como, de quem são? São seus. Você acabou de tirar.
MARIDO Estes sapatos nunca foram meus.
MULHER (olhando e notando seu erro – agressiva) Onde foi que você arranjou estes sapatos?
MARIDO Estes sapatos não são meus, eu já disse!
MULHER Exatamente. E de quem são? Como é que você sai de casa com um par de sapato e chega com outro?
MARIDO Espera aí...
MULHER Onde foi que você andou? Vamos responda!
MARIDO Eu cheguei em casa com os mesmos sapatos que saí. Estes é que não são os meus sapatos.
MULHER São os sapatos que você tirou. Você mesmo disse que estavam apertados. Logo, não eram os seus. Quero explicações.
MARIDO Só um momentinho. Só um momentinho! (um breve silêncio)
MULHER Estou esperando.
MARIDO (pegando os sapatos) Tenho certeza absoluta, absoluta! Que não entrei neste quarto com estes sapatos! E olhe só, eles não podiam estar apertados (colocando o sapato) porque são maiores do que o meu pé.
MULHER (após um silêncio) Então só há uma explicação.
MARIDO Qual?
MULHER Eu estava com outro homem aqui dentro quando você chegou. Ele foi para dentro do armário e esqueceu os sapatos. (breve silêncio) Mas nesse caso onde é que estão os seus sapatos?
MARIDO Você poderia ter entregado os meus sapatos para o homem dentro do armário, por engano.
MULHER Muito bem. Agora, além de adúltera, você está me chamando de burra. Muito obrigada.
MARIDO Não sei não. E eu ouvi vozes aqui dentro...
MULHER Então faz o seguinte. Vai até o armário e abre a porta.
MARIDO (aproxima-se do armário, tirando o paletó)
MULHER (no momento que ele vai abrir) Você sabe, é claro, que no momento em que abrir essa porta estará arruinando o nosso casamento. Se não houver ninguém aí dentro, nunca conseguiremos conviver com o fato de que você pensou que havia. Será o fim.
MARIDO E se houver alguém?
MULHER Aí será pior. Se houver um amante de cuecas dentro do armário, o nosso casamento se transformará numa farsa de terceira categoria. Em teatro de graça. Não poderemos conviver com o ridículo. Também será o fim.
MARIDO (olhando para o terno) De qualquer maneira, eu preciso abrir a porta do armário para guardar a minha roupa...
MULHER Abra, mas pense no que eu disse.
MARIDO (abre a porta do armário, depara-se com o amante – longo silêncio) Com licença. (começa a pendurar a roupa)
AMANTE (sai lentamente de dentro) Com licença. (quando está saindo)
MARIDO Psi.
AMANTE É comigo?
MARIDO É. Os meus sapatos. (trocam os sapatos, o amante sai – o marido deitar-se na cama como se nada tivesse acontecido)
FIM
A morte do caixeiro viajante
Arthur Miller
(2 homens e 1 mulher)
Ouvem-se batidas na porta. Ela usa baby doll preto. Ele abotoa a camisa. Novas batidas na porta. Eles se olham. Ela ri. Ri muito...
WILLY Quer parar de rir? Quer parar?
A MULHER Você não vai atender a porta? Ele vai acordar o hotel inteiro.
WILLY Não estou esperando ninguém.
A MULHER Quem sabe o hotel está pegando fogo?
WILLY Estão batendo na porta errada.
A MULHER Estou ficando nervosa, Willy, isso me deixa nervosa.
WILLY Está bem, fique no banheiro e não sai de lá.
Ouvem-se novamente as batidas. Willy abre a porta e agora está frente a frente com o jovem Biff
BIFF Por que você não respondeu?
WILLY Estava no banheiro com a porta fechada. Só agora foi que ouvi. O que é que você está fazendo aqui em Boston?
BIFF Papai fui reprovado em matemática. Faltaram quatro pontos.
WILLY E eles não lhe deram mais quatro pontos?
BIFF Você fala com ele, papai? Ele gostará de você. Do seu jeito de falar.
WILLY Claro que falarei. Desça e peça minha conta na portaria. (ouve-se barulho vindo do banheiro)
BIFF Há alguém aí no banheiro?
WILLY Não é no quarto ao lado, estão dando uma festa...
A MULHER (entra rindo) Posso entrar?
Willy olha Biff, que contempla a mulher, boquiaberto.
WILLY Olha... já devem ter acabado a pintura. É melhor voltar para o seu quarto.
A MULHER Eu tenho que me vestir, Willy. Eu não posso...
WILLY Sai daqui! Vai embora, vai embora...
Esta é a senhora Francis. É uma compradora. Estão pintando o quarto dela...
A MULHER Cadê as minhas meias? Você me prometeu meias de seda, Willy?
WILLY Aqui pronto. Vai embora daqui.
A mulher arranca as roupas da mão de Willy, sai humilhada e zangada.
Biff chora.
WILLY Escute Biff, quando você crescer, você vai entender essas coisas. Não dê importância exagerada a isto. Vou ao seu professor amanhã cedo.
BIFF Não precisa.
WILLY Como não precisa. Ele vai dar os pontos que faltam para entrar na universidade.
BIFF Ele nem vai ligar para você. (rompendo em prantos)
WILLY Oh, meu filho...
BIFF Papai...
WILLY Ela não significa nada para mim.
BIFF Você... Você deu a ela as meias da mamãe! (as lágrimas explodem)
WILLY Meu filho...
BIFF Não me toque, seu... mentiroso.
WILLY Peça desculpa por isso!
BIFF Seu farsante... seu farsantezinho vulgar! Farsante. (se vira rapidamente e sai chorando, levando a maleta. Willy permanece no chão de joelhos)
WILLY Volte aqui. Eu lhe dei uma ordem. Volte! Volte aqui! Eu lhe darei um surra!
FIM
Lampião
RACHEL DE QUEIROZ
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 1 mulher)
LAMPIÃO (aparece, vindo do banho no açude próximo. Aproxima-se da mulher).
Mª BONITA (levanta os olhos para ele) A água prestava?
LAMPIÃO Pelo menos é melhor que a do açude velho. Aquele talhava o sabão. Cadê os Frascos de Cheiro?
Mª BONITA Estão aqui no embornal. (apanha uns dois frascos de perfume)
LAMPIÃO (destampa o vidro e se perfuma generosamente) E café?
Mª BONITA (enche uma caneca) Guardei quentinho para você.
LAMPIÃO (tira do cinto uma colher de prata, mexe o café, depois examina a colher).
Mª BONITA Credo em cruz, homem! Até de mim você desconfia?
LAMPIÃO Até do meu anjo da guarda.
Mª BONITA Se eu fosse você não confiaria nessa tal colher de prata, já ouvi dizer que existe veneno que não escurece a prata.
LAMPIÃO (que iria levando a caneca até a boca, segura Maria pelo pulso) Quem te disse? Quem anda te ensinando a me dar veneno?
Mª BONITA (livrando o pulso) Se eu quisesse matar você, não precisaria de ensino de ninguém. Há muito jeito nesse mundo de se acabar com um homem.
LAMPIÃO Maria, quem te ensinou que existe um veneno novo que não escurece prata?
Mª BONITA Ninguém me ensinou, faz muito tempo, o finado Antônio Ferreira, me vendo arear sua colher, disse que não é todo veneno que escurece a prata. Há muito veneno que deixa ela branca.
LAMPIÃO Coisa fácil é encher a boca de defunto com conversa que nunca teve.
Mª BONITA De começo quando você começava com isso eu tinha raiva, depois eu chorava. Agora o que me dá é aquele desanimo! Será possível que depois de tantos anos... tanta luta... você ainda pense em traição? De que me servia a vida com você morto? (pausa) Você já pensou no que os “Macacos“ haveriam de fazer se pegassem a mulher de Lampião viva?
LAMPIÃO O que eu sei é que um homem como Lampião é sozinho no mundo. Nem mulher tem, nem filho tem, nem irmão e nem parentes. Por ele somente os Santos no Céu!
Mª BONITA Te benze homem, te benze! Quem renega os seus morre sozinho.
LAMPIÃO Ah! Isso é que não morro, sozinho não! No dia em que eu morrer, vai haver tanto defunto que até urubu vai enjoá. Isso eu Prometo. Porque o meu destino é morrer atirando e, quando eu atiro, bala não se perde. (passa a mão pelas cartucheiras que lhe cruzam o peito) Estas pelo menos vão todas...
Mª BONITA (volta ao trabalho desanimada)
FIM
O Auto da Compadecida
ARIANO SUASSUNA
Adaptação: Renata Kamla
(3 homens)
Chicó e João Grilo estão na frente da igreja de padre João, querem convencê-lo a benzer o cachorro de sua patroa, a mulher do padeiro.
CHICÓ Padre João!
JOÃO GRILO Padre João! Padre João!
PADRE (aparecendo na frente da igreja) Que há? Que gritaria é essa?
CHICÓ Mandaram avisar para o senhor não sair, porque vem uma pessoa aqui trazer um cachorro para o senhor benzer.
PADRE Para eu benzer?
CHICÓ Sim
PADRE (com desprezo) Um cachorro?
CHICÓ Sim
PADRE Que maluquice! Que besteira!
JOÃO GRILO Cansei de dizer a ele que o senhor não benzia.
PADRE Não benzo de jeito nenhum.
CHICÓ Mas padre, não vejo nada de mal em se benzer o bicho.
JOÃO GRILO No dia em que chegou o motor novo do major Antônio Morais o senhor não benzeu?
PADRE Motor é diferente, é uma coisa que todo mundo benze. Cachorro é que eu nunca ouvi falar.
CHICÓ Eu acho cachorro uma coisa muito melhor do que motor.
PADRE É, mas quem vai ficar engraçado sou eu, benzendo o cachorro. Benzer motor é fácil, todo mundo faz isso, mas benzer cachorro?
JOÃO GRILO É, Chicó, o padre tem razão. Quem vai ficar engraçado é ele e uma coisa é benzer o motor do major Antônio Morais e outra benzer o cachorro do major Antônio Morais.
PADRE Como?
JOÃO GRILO Eu disse que uma coisa era o motor e outra o cachorro do major Antônio Morais.
PADRE E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais?
JOÃO GRILO É. Eu não queria vir, com medo de que o senhor se zangasse.
PADRE (desfazendo-se em sorrisos) Zangar nada, João! Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro!
JOÃO GRILO Quer dizer que benze, não é?
PADRE Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus.
JOÃO GRILO Então fica tudo na paz do Senhor, com cachorro benzido e todo mundo fica satisfeito.
PADRE Digam ao major que venha. Eu estou esperando. (Entra na igreja)
FIM
Gota d’água
Paulo Pontes e Chico Buarque
Adaptação: Alex Capelossa
(2 homens)
Creonte avisa Jasão que vai despejar Joana
CREONTE Vou botar pra fora.
JASÃO Assim, de uma hora pra outra?
CREONTE Agora! Vou co’a polícia e boto ela na rua. E tem mais, seu Jasão, dentro da lei. Sabe que eu posso, não sabe?
JASÃO É, eu sei.
CREONTE Pois muito bem. (levanta-se para sair)
JASÃO Mas se o senhor acua a fera é pior.
CREONTE Sei.
JASÃO Então precisa parar pra ouvir uma ponderação.
CREONTE Se é sobre ela, pra mim é como brisa.
JASÃO Não, é sobre você.
CREONTE O senhor.
JASÃO Não, você!
CREONTE Me respeite, seu...
JASÃO Vai me ouvir agora que eu já tou mais que cansado de te ver fazer besteira.
CREONTE Vou rir. É piada. Que é isso?
JASÃO Está errado.
CREONTE O que???
JASÃO Pois é, ta tudo errado!
CREONTE Errado o que?
JASÃO Posso falar? (tempo) Quero me desculpar primeiro. Falei alto.
CREONTE Anda depressa, fala.
JASÃO É que. Tem que ceder um pouco. Afinal está em jogo todo o seu negócio.
CREONTE Ceder o que? Você é sócio ou rival?
JASÃO Não fique pensando que o povo é nada, arrume uns espaços pras crianças poderem tomar sol. Construa um estádio de futebol, pinte o prédio, com seus ganhos, o senhor é que tem que separar uma parte e fazer melhorias. Encha a fachada de pastilhas que eles já acham bom. Ao terminar, reúna com todos e diga: ninguém tem mais prestação atrasada. Vamos arredondar as contas e começar a contar só a partir de agora.
CREONTE Enlouqueceu!
JASÃO Ninguém.
CREONTE Não dá.
JASÃO Como não dá? Já deu! Ninguém. Ninguém, precisa me pagar os atrasos. É bonificação.
CREONTE (debochado) Muito bem. Gostei do plano, menino. É caro. Preciso dum pequenino empréstimo pra fazer essa festa. Quem sabe a puta que o pariu me empresta? Quem é que vai pagar? Eu estou duro, porra!
JASÃO Quem vai pagar, Creonte, é o futuro.
CREONTE Ahn, o futuro, comi muito quando era criança.
JASÃO Legal Quer ir no peito, ta legal.
CREONTE Vou, seu Jasão, e vou pessoalmente matar essas jararacas e mostrar o pau pra dar exemplo àquela gente. (vai saindo)
JASÃO Não, espere, por favor. E meus filhos?
CREONTE E minha filha?
FIM
Gota d’água
Paulo Pontes e Chico Buarque
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 1 mulher)
JOANA O que é que você quer nesta casa?
CREONTE Eu vim aqui pra falar que aqui nesta vila você não vai ficar nem mais um minuto, pega seus troços, teus filhos e pé na estrada.
JOANA Mas como? Esse lugar é meu...
CREONTE É? Já vamos ver isso. Quebro esta merda! (pausa) Vou ser camarada mais uma vez. Apanhe aí esse dinheiro saia sem chiar.
JOANA Você não pode me botar pra fora...
CREONTE Se você não sai por bem, sai no pau...
JOANA Onde é que eu vou morar?
CREONTE Sei lá... Onde quiser. Mas sai da minha frente.
JOANA Creonte... Por que um homem poderoso assim precisa jogar toda a sua força em cima duma mulher sozinha... Por quê?
CREONTE Por medo...
JOANA Medo de mim?...
CREONTE Medo de você sim, porque você pode investir a qualquer hora. Ta calibrada de ódio, a arma na mão. Não gosto de guerra nem vou facilitar diante de quem está se achando injustiçada.
JOANA Mas o que eu posso lhe fazer? Posso nada. Estou de mãos atadas, tenho que cuidar de dois filhos...
CREONTE Sinto, mas não posso fazer coisa alguma. Vumbora, vumbora, mulher, vumbora, vai...
JOANA Escute só, seu Creonte, o senhor é pai, tem uma filha e é capaz de ter sentimentos. É por causa dos meus filhos que eu lhe suplico, deixa eu ficar...
CREONTE Exatamente por amor à minha filha que não dá mais...
JOANA Por favor,... Eu juro que fico quieta, seu Creonte...
CREONTE Não, vumbora...
JOANA Meu Gangá, fecharam por todo lado... Mas não pode, de algum lugar um aliado tem que vir...
CREONTE Que? Vai começar com ameaça?
JOANA Não! Pelo menos me dê um dia... Um dia só, que é para eu saber pra onde é que eu posso ir...
CREONTE Não dá...
JOANA Não posso sair sem destino com dois filhos pequenos. Eu ia embora mesmo. Não quero ficar nesta desgraça de lugar. Só quero um dia pra me orientar.
CREONTE Nem devia levar em consideração, porque tenho certeza de estar fazendo besteira. Agora, eu vou lhe falar com toda a clareza: se amanhã à noite você inda estiver aqui, eu acabo de vez co’essa novela. Eu quebro tudo, ouviu?
JOANA Ouvi sim, Creonte.
FIM
Otelo
WILLIAM SHAKESPEARE
Adaptação: Alex Capelossa
(1 homem e 1 mulher)
DESDÊMONA (acordando) Quem está aí? Otelo?
OTELO Sim, Desdêmona.
DESDÊMONA Venha para a cama, meu senhor.
OTELO Já rezou hoje de noite, Desdêmona?
DESDÊMONA Sim, meu senhor.
OTELO Se você recorda de algum crime que a deixe irreconciliável com o céu e com a graça divina, implore logo o perdão.
DESDÊMONA (estranhando) Meu senhor, que está querendo dizer com isso?
OTELO Vamos faça logo e seja breve! Enquanto isso vou andar um pouco. Não gostaria de matar teu espírito sem que ele estivesse preparado. Não... Que o céu não permita! Não gostaria de matar tua alma.
DESDÊMONA Está falando de matar?
OTELO Sim, estou.
DESDÊMONA Então, que o céu tenha piedade de mim!
OTELO Amém, de todo o meu coração!
DESDÊMONA Embora esteja falando assim, tenho esperança de que não me mate.
OTELO (olhando-a)
DESDÊMONA E, mesmo assim, tenho medo do senhor. Por que deveria ter medo, é o que não sei, ignorando minha culpa.
OTELO Pensa em teus pecados.
DESDÊMONA São os amores que sinto pelo senhor.
OTELO Sim, e por causa disto vais morrer.
DESDÊMONA Alguma paixão sanguinária agita todo vosso ser. São maus presságios; entretanto, espero que não seja a mim que estejam ameaçando.
OTELO Silêncio! Fique quieta!
DESDÊMONA Assim farei. Mas de que se trata?
OTELO Aquele lenço que eu gostava tanto e que te dei, você o deu à Cássio.
DESDÊMONA Não, por minha vida e minha alma! Mande chamá-lo e pergunte-lhe.
OTELO Confessa logo teu crime, pois negar com juramento não poderia destruir a firme convicção sob a qual estou dominado. Vais morrer.
DESDÊMONA Que Deus, então, tenha misericórdia de mim!
OTELO Eu digo amém.
DESDÊMONA E tende misericórdia também do senhor! Nunca o ofendi durante minha vida. Nunca amei Cássio, a não ser com essa afeição comum que o céu me permitia. Nunca lhe entreguei qualquer recordação.
OTELO Pelo céu que eu vi meu lenço nas mãos dele! Mulher falsa! Transforma meu coração em pedra e vai fazer-me cometer um assassinato, quando pretendia fazer um sacrifício! Eu vi o lenço!
DESDÊMONA Então ele o achou. Nunca dei a Cássio. Mande chamá-lo aqui. Faça que ele confesse a verdade.
OTELO Ele já confessou.
DESDÊMONA O que confessou, meu senhor?
OTELO Que te possui.
DESDÊMONA Como?
OTELO Sim.
DESDÊMONA Não repetirá.
OTELO Não! Está com a boca fechada. Iago tomou conta dele.
DESDÊMONA Oh!... Como! Morreu?
OTELO Mesmo que ele tivesse tantas vidas quantos cabelos têm, minha vingança teria fôlego para todas elas.
DESDÊMONA (desesperada) Ai! Ele foi traído e eu estou perdida!
OTELO Está chorando por causa dele na minha cara?
DESDÊMONA Bata-me, meu senhor, mas não me mate!
OTELO Cala-te, meretriz!
DESDÊMONA Mate-me amanhã! Deixe que eu viva esta noite!
OTELO Não! Não haverá vacilação!
DESDÊMONA (implorando) Só enquanto faço uma oração!
OTELO É tarde demais... (asfixia Desdêmona)
FIM
Um bonde chamado desejo
TENNESSE WILLIAMS
Adaptação: Renata Kamla
(1 homem e 1 mulher)
Stella e Stanley estão conversando sobre a irmã Blanche.
STELLA Stan, nós perdemos Belle Revê.
STANLEY A propriedade lá no campo?
STELLA Sim.
STANLEY Como? Ela não te mostrou nenhum papel, nenhuma escritura de venda ou nada parecido, hein?
STELLA Parece que não foi vendida.
STANLEY Bem, então que diabo fizeram, deram de presente pra alguma organização de caridade?
STELLA Fala baixo! Ela pode ouvir você!
STANLEY Pouco importa que me ouça. Quero ver os papéis.
STELLA Você está sendo ridículo quando dá a entender que minha irmã ou eu poderia ter roubado o que quer que fosse.
STANLEY Então, onde está o dinheiro, se a propriedade foi vendida?
STELLA Vendida não, perdida, perdida! Stanley!
Ele abre bruscamente o baú onde estão as roupas de Blanche, e tira uma porção de vestidos
STANLEY Abre seus olhos para isso! Você acha que foi com o ordenado de professora que ela comprou isto tudo?
STELLA Fica quieto!
STANLEY Veja estas plumas e peles que ela trouxe para exibir-se aqui. O que é isto? Um vestido de ouro maciço, e este? O que é isso? Peles de raposa! Onde estão suas peles de raposa, Stella????
STELLA Não seja idiota, Stanley!
Ele joga as roupas e peles em cima do sofá e sai deixando Stella sozinha
FIM
Romeu e Julieta
William Shakespeare
Adaptação: Carolina Costa
(1 homem e 1 mulher)
A cena acontece no quarto de Julieta. Romeu está se vestindo para ir embora e Julieta acorda.
JULIETA Já vai partir? O dia ainda está longe. Não foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que ouviu; creia no que eu digo.
ROMEU É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol. Olha querida, para aquelas nuvens do nascente. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.
JULIETA Não é do dia aquela claridade, pode acreditar. Não precisa partir assim tão cedo.
ROMEU Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz assim, se assim o quiser. Ficar é para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.
JULIETA É dia; foge! Depressa! É a cotovia, sim. A luz aumenta a cada instante.
ROMEU A luz? A escuridão apavorante.
JULIETA Ouço barulho.
ROMEU Adeus, adeus! Um beijo, e saio logo.
JULIETA Meu Amor! Notícias tuas quero ter todas as horas.
ROMEU Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento.
JULIETA Pensa mesmo que ainda nos veremos?
ROMEU Não duvide. Adeus! Adeus! (Romeu sai)
FIM
Senhora dos Afogados
Nelson Rodrigues
Adaptação: Lúcia de Léllis
(1 homem e 1 mulher)
Quarto de Eduardo e Misael. O maior dos Drummond está sob violenta tensão.
EDUARDA Ele chegou... Ele está aqui...
MISAEL Quem?
EDUARDA O noivo de tua filha.
MISAEL Aqui, onde?
EDUARDA Em algum lugar desta casa... Eu sei que ele está, juro que está... Eu sinto a presença dele no próprio ar que respiro...
MISAEL E que importa que ele esteja ou deixe de estar?
EDUARDA Nada, Misael, nada!
MISAEL E por que fala nele neste momento?
EDUARDA Não sei.
MISAEL E por que fala aqui dentro do quarto? Dentro do quarto, nenhuma mulher deve pensar noutro homem que não seja o marido...
EDUARDA Marido.
MISAEL Nunca mais fale nele, nunca mais fale nesse vagabundo de cais. (como para si mesmo) Ele é o deus das mulheres da vida...
EDUARDA (para si mesma) - Tem o corpo todo tatuado.
MISAEL E sabe também que ele tem nome de mulher no corpo? E quem te disse?
EDUARDA Toda a cidade diz... Misael, este homem não se deve casar com a nossa filha...
MISAEL Às vezes, eu mesmo me comparo - Eu, velho, encarquilhado, a mão já trêmula... E ele, quase menino, cheirando a mar...
EDUARDA Quando ele chega, Misael, eu sinto cheiro de mar nos meus cabelos...
MISAEL Esses passos... De quem são?
EDUARDA (dolorosa) Dele.
MISAEL E vem para aqui... Não quero que nenhum homem se aproxime do nosso quarto, do lugar onde você tira a roupa, fica nua...(entra o noivo)
NOIVO (surdamente) Sr. Ministro.
MISAEL Entrou no quarto...
EDUARDA Misael.
NOIVO Eu estava no mar... Procurando o corpo de Clarinha... eu e Paulo...
MISAEL Procurando Clarinha...
NOIVO E, de repente, um homem se aproximou num outro barco. Um homem que eu nunca vi, juro que nunca vi... E esse homem disse que o senhor tinha visto minha mãe...
MISAEL Nunca mais me chame de Ministro... Não vou ser Ministro... (muda de tom) Esse homem disse que eu tinha visto sua mãe, mas eu?
NOIVO O senhor!
MISAEL Eu, não é possível... Não pode ser...
NOIVO (estende a mão) Minha mãe...
MISAEL Você é o noivo de minha filha. É, não - foi... Eu não quero que você seja meu genro - nunca! Eu expulso você daqui, expulso você deste quarto e desta casa para sempre!
NOIVO Sr. Ministro viu minha mãe... Foi a única pessoa que viu minha mãe...
MISAEL Não! Não!
NOIVO Viu, sei que viu. No banquete, viu no banquete...
MISAEL No banquete?
NOIVO Do outro lado da mesa, estava uma mulher... Bem na sua frente, Sr. Ministro... Não decotada como as outras, não vestida como as outras...
MISAEL E você?Que está fazendo aqui? Por que não está junto de sua filha?Vai e depressa!
NOIVO Ela fica.
EDUARDA (sem voz) Não quero... Ficarei.
MISAEL Essa mulher que eu vi no banquete, que estava defronte de mim - olhando sempre para mim -, essa mulher não pode ser sua mãe.
NOIVO Era minha mãe!
MISAEL Essa mulher está morta, morreu há muito tempo...
NOIVO Minha mãe também está morta, morreu há muito tempo...
MISAEL Morta!
NOIVO Sei há quanto tempo minha mãe morreu... Nesse dia, mataram minha mãe. Com um machado... E todos dizem que foi o senhor, Ministro, juram que foi o senhor...
EDUARDA Não! Não! Meu marido só viu sua mãe duas ou três vezes.... Foi, não foi, Misael? Você sempre disse...
NOIVO Viu minha mãe só duas vezes?
MISAEL (virando o rosto) Só.
NOIVO Mente!
EDUARDA Só duas vezes.
NOIVO (agarrando Eduarda pelos ombros) Seu marido foi amante de minha mãe... Muito tempo... Olhe bem para mim. Assim...reconhece este rosto? Estes olhos? reconhece a sua carne em mim?
MISAEL Meu filho morreu.
NOIVO Pareço morto? Minha mãe escreveu uma carta na véspera de morrer – escreveu que tu queria matá-la... Confessa agora para mim e para tua mulher...
MISAEL Não!
NOIVO Confessa!
MISAEL Matei.
EDUARDA Matou.
NOIVO Com um machado?
EDUARDA Assassino!
MISAEL (para o noivo) Mas se eras meu filho...
NOIVO Teu filho.
MISAEL Por que ficou noivo de minha filha? Noivo de tua irmã?
NOIVO Eu queria entrar nesta casa, para pertencer à tua família, para que uma Drummond me pertencesse...
MISAEL Você não pode ser noivo de minha filha.
NOIVO Não posso ser noivo de tua filha, mas posso ser amante de tua mulher!
MISAEL Não!
NOIVO De tua mulher, sim, de tua mulher... Não quero tua filha, quero tua mulher – assassino!
MISAEL Moema! Moema!
(O noivo toma Eduarda nos braços, sem que esta ofereça resistência.)
NOIVO Há anos que eu esperava por este momento... E juro, que desde o primeiro momento, pensei em ti, não em minha irmã, mas em ti... E se beijava as mãos de minha irmã, é porque eram iguais às tuas...
MISAEL Você não terá nada de minha mulher, nada!... As esposas de minha família são fiéis... em 300 anos, nunca houve um adultério nesta casa! Pergunta a quem quiser... Na rua, no cais...Nunca houve algum adultério na minha família?
FIM
Os Sete Gatinhos
Nelson Rodrigues
Adaptação: Mônica Granndo
(2 mulheres)
Silene, que tem 16 anos, estuda num colégio interno, mas foi levada de volta pra casa por ter matado uma gata prenha e por ela mesma estar grávida Aurora, sua irmã mais velha, entra em seu quarto e tenta descobrir como isso aconteceu.
AURORA Olha pra mim.
SILENE Estou olhando.
AURORA (segurando as mãos da irmã) Você confia em mim?
SILENE Confio.
AURORA Então você vai contar tudo! Você responde, direitinho, a tudo que eu perguntar?
SILENE Respondo.
AURORA O nome dele.
SILENE O nome? (levantando-se) Mas o nome por que?
AURORA Lógico!
SILENE Se ele é casado e não pode casar outra vez? Que interessa o nome? Eu digo, sou menor, vocês vão à polícia e há o escândalo!
AURORA É o seguinte: eu tenho um namorado. E pra ele não custa pra dar uma surra ou, até, liquidar um cara. Isso pra ele é mole!
SILENE Vocês então mandariam dar uma surra no meu...
AURORA Surra, uma conversa! Um tiro! Uma bala!
SILENE Matar?
AURORA O cara leva um tiro sem saber como e fica por isso mesmo!
SILENE Ele não tem culpa! A culpada sou eu! (agarra-se a Aurora.)
AURORA Mas que é isso? Maninha, levanta!
SILENE Aurora, quem te fala não é mais aquela menina. Sou mulher igual a vocês e até mais, porque estou grávida, graças a Deus! Quero saber, você tem esse namorado, gosta dele?
AURORA Gosto.
SILENE É amor?
AURORA Demais.
SILENE Eu também amo! Ele não é canalha, não! Ele não queria, porque eu sou menor e fui eu que insisti e quis ter o filho!
AURORA Mas te desgraçou!
SILENE Pelo contrário! Eu não sou desgraçada! Você é desgraçada?
AURORA Eu?
SILENE Tão bom gostar de alguém!
AURORA Eu sou feliz! Muito!
SILENE E eu também! Você não pode ficar contra mim! Ele é tão diferente dos outros! E tão bom que, imagina... (segura a mão da irmã) A mulher dele está doente e ele é quem cuida dela!
AURORA O que eu não entendo é como você, interna, sem sair, e foi acontecer isso! Você conheceu o rapaz onde? Ou já conhecia?
SILENE Ele é vizinho do colégio. Passava sempre pela calçada e, uma vez, me olhou. Também olhei e ele tem um olhar. Que arrepiava! E uma boca que dá vontade de beijar!
AURORA Bonito?
SILENE Lindo!
AURORA E vocês se encontravam?
SILENE Fomos para o quarto da empregada. A mulher não sai da cama. Agora eu vou te contar uma coisa, que você não vai acreditar!
AURORA Conta tudo!
SILENE Eu pedi um filho a ele, eu! Ele não queria; disse “não vale a pena”, mas eu sou teimosa e, finalmente... E não me arrependo!
AURORA Que falta de juízo!
SILENE E você sabe que quando ele passa, na calçada do colégio, as meninas dizem: “Lá vem o homem vestido de virgem!”.
AURORA Responde, que é importante: por que vestido de virgem?
SILENE Porque só anda de branco, só usa terno branco!
AURORA Chega!
SILENE Tem um apelido gozado!
AURORA Não quero saber, nem de nome, nem de apelido!
AURORA Deixa pra lá! Escuta: você não me sai do quarto, não fala, não diz nada. Resolvo tudo. Vou lá, digo que o homem viajou...
SILENE Aurora, você é um anjo! E olha: você vai ser madrinha do meu filho, que eu faço questão!
(Aurora sai do quarto)
FIM
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