O Ator e seu Ofício
Fernanda Montenegro
Albert Camus, falando sobre o absurdo da existência humana, observa: “O ator reina no domínio do mortal. De todas as glórias do mundo, sabemos que a sua é a mais efêmera. E é também o ator quem mais percebe, entre todos os homens, que tudo deve morrer um dia. E para ele, não representar, significa morrer cem vezes com as cem personagens que ele teria animado ou ressuscitado”.
Percorrendo assim os séculos e os espíritos, imitando o homem tal como ele pode ser e tal como é, o ator confunde-se com outra figura absurda: o viajante. E como viajante, o ator esgota uma coisa que percorre sem cessar. Ele é o viajante do tempo e, se é um grande ator, torna-se o ansioso viajante das almas.
Quanto mais estreito é o limite que lhe é dado para criar sua personagem, tanto mais necessário que ele talento. Afinal ele vai morrer dentro de duas ou três horas sob um rosto que não é o seu. É preciso que nessas duas ou três horas ele sinta e exprima todo um destino excepcional _ isto tem um nome certo: é perder-se para se encontrar. Nessas duas ou três horas ele vai até “o fim do caminho sem saída” que o homem da platéia gasta a vida toda a percorrer.
O ator e unicamente o ator é o começo e o fim da arte teatral. Somos provedores.
Na verdade, nenhuma atuação teatral viva pode ser arquivada, gravada ou exposta, como, por exemplo, um texto de Ésquilo, uma partitura de Beethoven, um quadro de Da Vinci.
Quero deixar claro que nós não praticamos um ofício do tipo prioritário: padeiro, médico, serralheiro, músico, mesmo pintor, ou mesmo escritor (artes tidas como nobres). Esses ofícios todos têm uma herança científica da sua existência e transferência. Suas conquistas são palpáveis. Deixam sempre algo de concreto. Nosso ofício _ falo do teatro _ Não deixa provas.
A posteridade não nos conhecerá. Quando um ator pára o ato teatral, nada fica. A não ser a memória de quem o viu. E mesmo essa memória tem vida curta.
É evidente que todos nós podemos representar. O disfarce faz parte da natureza humana. É fascinante a vontade de atuar de qualquer um de nós, não atores.
Acho que todo mundo pode entrar no jogo e até jogar bem certos jogos. Por essa vontade e facilidade de jogar, é muito comum confundirem o teatro com a terapia, com a necessidade puramente egoísta e vaidosa de se ter “um rosto na multidão”.
Reconheço que o ofício de representar pode também englobar um pouco de tudo isso: terapia, espaço para doutrinação política, exibicionismo, “porra-louquice”. Porém, o exercício, no tempo, definirá aquele que veio para ficar, seja ele um grande ator ou um ator sofrível. Tchekov define esse “ficar” de “perseverança”. É a perseverança da verdadeira vocação que vai definir o jogo verdadeiro do jogo mentiroso.
O oposto do jogo mentiroso é o ofício da loucura criativa, da responsabilidade, do experimento, da conseqüência, da sensualidade, do humor.
Nosso ofício é lento, muito lento, desgastante, fugidio.
A percepção do espaço teatral só se desvenda depois de um longo noviciado. apanha-se todo dia.
É uma profissão de absoluta solidão, onde “o outro” é fundamental. Buscar o outro. Confundir-se com o outro. Somar com o outro num só corpo. Formando um só organismo, uma só respiração.
O chegar ao outro é um longo caminho. Como chegar lá?
Preparando as suas ferramentas.
Não se fechando em preconceitos.
Exercitando a sua sensibilidade.
Absoluta tolerância, mas, nenhuma negligência.
As dificuldades nos acompanham sempre, na medida em que trabalhamos sobre nós mesmos. Não nos vemos. Ah! Se nós pudéssemos nos olhar, lá da platéia!
É tão comum nos ensaios ou laboratórios, sabermos tudo sobre o nosso colega e bloqueamos a nossa percepção no que diz respeito à nossa própria busca.
Penso que nosso ofício não tem a condenação bíblica do trabalho. O suor do nosso rosto não é um castigo. Nosso ofício é a nossa festa. É o nosso sentido de vida. É o nosso prêmio. Portanto ao enfrentar as propostas de trabalho, sou de opinião de que tudo soma. Tudo é exercício. Seja no teatro tradicional ou marginal, num palco italiano ou na rua. Na zona urbana ou na periferia. No jogo alienado ou no engajado. Na representação emocionada ou distanciada, o que fica, o que atravessa os anos e os modismos, é o conhecimento do ofício. É o adestramento desse instrumento que você é. Há uma famosa frase de que não há nada pior para uma revolução do que um revolucionário mal preparado. Não há nada pior para o teatro do que o homem de teatro mal preparado. Esse preparo tem que ser orgânico. Sem divisões e subdivisões.
Sinto que nossos atores procuram a sua individualidade no seu semelhante. É a conseqüência de um país que também está se abrindo. Aposto diante do momento que estamos vivendo, numa geração que busca a unidade, a conclusão. Faço votos para que vocês sejam, antes de tudo, aglutinadores.
Poucos de vocês chegarão ao fim do curso. Os que chegarem terão sido preparados por gente competente, vivida e sofrida na sua perseverança de homens de teatro. Sejam totalmente dedicados, mas, não confinados. Repito: Busquem a individualidade, não o individualismo.
Concluo, repetindo aqui as palavras de Hamlet aos atores:
“Deixa que teu bom senso seja teu guia.
Que a ação corresponda à palavra e a palavra à ação,
pondo especial atenção e cuidado em não ultrapassar os limites da simplicidade da natureza,
porque tudo o que se opõe à natureza, igualmente se afasta da própria finalidade da arte dramática, cujo objetivo,
tanto na sua origem, como nos tempos que correm, foi e é, o de apresentar um espelho da vida.
Mostrar à virtude suas próprias feições, ao vício sua verdadeira imagem e a cada idade e geração sua fisionomia e características.
“Ide preparar-vos”.
(palestra realizada no centro de artes livres em março de 1983)
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